Porto de Sines

Porto de Sines

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Colonos "Navegadores"


Naqueles tempos longínquos, meados do século passado, Portugal era um país com mais de 50% de analfabetos, trabalhando 80% da sua população para a agricultura. Não tinham poder de reivindicação. Era o tempo da crise e da fome.

Em Vilarinho da Castanheira [concelho de Carrazeda de Ansiães] a sua população era de uma ruralidade de enxada às costas. Viviam ao ritmo do Sol. Cavavam, lidavam nas casas e nos campos; sempre no mesmo género de vida desagradável e dura, com vagas compensações de longe em longe, mas sempre curvados para a terra ou nas oficinas poeirentas.

Ali cresci, privilegiado em relação à grande maioria dos garotos da minha geração. Lidei de perto com gente muito pobre e necessitada.
Alguns vestiam uma "roupa nova" – calças de cotim e uma camisa de riscado, – no dia da Festa da Nossa Senhora da Assunção e só a despiam na festa do ano seguinte. Os que não andavam descalços, calçavam tamancos - “socos”. Assoavam-se com um lenço de... "cinco pontas".
Mães para lavarem a roupa dos filhos, despiam-nos, ficando estes nus, até poderem vestir a roupa novamente.

Passava-se muita fome. Muitas vezes, nem uma côdea de pão tinham para comer.
Famílias um pouco mais afortunadas, comiam a sua refeição principal junto à lareira, num prato enorme. Quem mais depressa se despachava melhor alimentado ficava.

Mães gritavam pelos numerosos filhos ao fim da tarde, antes do anoitecer..
Muitas casas tinham uma só divisão, paredes meias com os animais domésticos. Dormiam todos na mesma cama; uns para a cabeceira outros para os pés.

Gracejava-se então, que podia uma pessoa nascer, viver e morrer sem sair de Vilarinho.

Os numerosos filhos da "Polaca", por exemplo, andavam descalços, nus ou quase nus, em pleno Inverno na calçada, diante da porta do casebre. Eram exemplos de miséria ostensiva, tanto material como espiritual.
Em frente, morava o Regedor. A miséria em que vivia aquela família, parece que não lhe dizia respeito, nem o incomodava.
Naquele tempo, o Regedor tinha que zelar pela manutenção da ordem. Tinha poderes para entrar na casa de qualquer pessoa, do nascer ao por do sol e, se necessário, dar voz de prisão. Os detidos ficavam, provisoriamente trancados, numa loja térrea por baixo da sua casa. Logo que possível eram transferidos para a sede do concelho.

Mais tarde, na década de cinquenta, famílias numerosas de Vilarinho e de outras aldeias de Trás-os-Montes, cansadas da pobreza, foram expulsos pela miséria, das suas bermas natais, embarcando às centenas no cais de Alcântara, em Lisboa, em paquetes da CNN [Companhia Nacional de Navegação] e CCN [Companhia Colonial de Navegação] e... "navegaram" para Angola e outros, que conheci, para Moçambique, como "colonos" onde, no Vale do Limpopo, lhes eram distribuídas terras [machambas] para cultivo. De agricultores passaram a "machambeiros" e outros dedicaram-se ao comércio abrindo cantinas [a cantina do Botelho era uma referência], com o fim de garantirem a ocupação daquela região de Moçambique .

O Vale do Limpopo era uma autêntica zona rural de Portugal Continental em Moçambique.
A Vila do Guijá, a cerca de 200Km de Lourenço Marques, mais tarde, Vila Trigo de Morais [em homenagem ao Eng. Trigo de Morais - transmontano de Mirandela e "arquitecto" do Plano de Irrigação do Vale do Limpopo, um dos maiores sistemas de regadio da África Austral], sediava todo o apoio logístico e comercial, sendo elevada, em 1971, à categoria de cidade.

Após o 25 de Abril, com a descolonização, a grande maioria destas famílias, regressou, às "vagas", de barco ou de avião a Portugal, com uma mão cheia de nada, deixando tudo para trás ao abandono, procurando reinstalar-se nas suas terras de origem e reconstruir as suas vidas.

O Estado Moçambicano tomou posse dessas terras e redistribuiu-as pelos seus "camponeses".

Em 1976, Trigo de Morais passou a denominar-se Chokwé, continuando, apesar de tudo, a lembrar Portugal e a Alma Portuguesa...

22 comentários:

Luís Coelho disse...

Bom dia Jorge.
O retrato da tua aldeia era igual ao meu e da minha aldeia.
As restantes eram a mesma coisa.
Lembro-me ainda da "tarimba"
Quando os rapazes cresciam passavam a dormir aí numa cama suspensa dos barrotes do telhado e nos anexos da casa. Geralmente na eira.
O colchão era de palha de centeio e as mantas e lençois eram serapilheira, as sacas abertas e cozidas umas às outras.
Por cima estendiam uma manta de farrapos.
Hoje não há pobres comparativamente.

acácia rubra disse...

Jorge:

Um bom retrato do Portugal de ontem ( Continental e Ultramarino), que as pessoas tentam esvaziar da memória, esquecendo-se que, ciclicamente, a História se repete...

Beijo

manuel marques disse...

Excelente texto.

Abraço.

serpai disse...

Olá Jorge,

obrigada pela visita e pelas palavras.

O trabalho em equipa tem destes resultados. Foi a primeira entrada en conjunto do blog El Puente e do blog Estados de Alma, que te convido a visitar. Oxalá te agrade!
Assim como te convido a levar o selo Símbolo da Amizade, porque também estás incluído.

o link do blog Estados de Alma é este:
http://osestadosdealma.blogspot.com/

Um abraço,

Sergio.

P.D.: que bem ficam, juntas, a flor da Argentina e a de Portugal!

acácia rubra disse...

Voltei porque, curiosamente, uma das minhas muitas viagens para S. Tomé foi feita no Império, que a fotografia retrata. Era um navio médio, mais ou menos como o Angola mas não tão luxuoso como os posteriores Infante D. Henrique ou o Príncipe Perfeito.

Foi bom recordar.

Beijo

Osvaldo disse...

Caro Jorge;
Bela crónica de uma realidade que muitos de nós conhecemos bem ou mal, porque também a vivemos.
A enchada era o o instrumento necessário à sobrevivência da maioria das familias que mal ou bem lá iam sobrevivendo.

Um grande abraço, caro amigo.

Osvaldo

Laura disse...

Ah, também viajei no Principe Perfeito, tinha dez anos estavamos em 1962, fevereiro...logo, havia medo havia terror nos olhos das centenas de soldados que embarcaram também..muitos não voltaram...

Sabia que havia pobres mas não assim tanto e que não tinham roupa para se cobrirem do gelo, neve e frio, mas que dor...
Vá que agora a pobreza é mais do espirito que dessa já pouco se vê...
Um abraço, gostei da prosa linda..gostei de sentir as palavras ressoar em mim.
laura

Regina Rozenbaum disse...

Jorge, amado!
Lendo essa história, antes de mais nada, tenho que agradecer por não saber (só imaginar)o que seja uma barriga sem alimento, um corpo nu com frio, uma "casa" de parede e meia. Mesmo minha mãe tendo nos criado, sozinha, com muiiiiitas dificuldades não sei o que é sentir FOME! Fico entristecida de ver/ler que apesar dos anos terem passado, tanto aí, quanto aqui e nesses quatro cantos do mundo ainda há tanta miséria e doenças para nos solidarizarmos e fazermos algo. Mesmo que pouco, podemos minimizar, um cadim que seja, toda essa diferença!
Beijuuss n.c.

www.toforatodentro.blogspot.com

Vitor Chuva disse...

Olá Jorge!
Este retrato, em tons muito vivos e marcados, não representava, então, somente a realidade desse lugar que aqui serve de base ao texto. A realidade que eu conheci tinha muito de semelhante, ainda que não tão vincada: Julgo que a situação de carência no interior do país tendia a ser mais extrema que no litoral, mas ainda assim, junto a este a vida não tinha nada de fácil; a mesmo andar descalço, até ser já quase homem, os mesmos pedintes, a mesma falta de espaço em casa, e tudo o mais que o Jorge mencionou, e tão bem descreveu nesta sua viagem ao passado das sua memórias.Gostei muito de ler.
Um grande abraço.
Vitor

Valéria Sorohan disse...

Uma viagem que me deixa imune a todos os naufrágios é aquela que realizo quando atraco neste blog além mar. Sempre com muito agrado e cumplicidade leio seus escritos e conheço um pouco mais sobre o seu país.

BeijooO*

Vivian disse...

...ví um pouquinho do Brasil
neste texto lindo.

quanta vida há nas emoções
vividas,
num planeta onde somos todos um.

bjbj desde um Brasil com frio...

FlorAlpina disse...

Olá Jorge,
Gostei desta forma de(d)escrever uma realidade passada que nem todos conhecem...

Bjs dos Alpes

Jorge disse...

Caro Luis,
Grato pela tua opinião, que considero.
Eu ainda "dourei um pouco a pílula", omitindo algumas situações degradantes nesse tempo de crise... Voltarei brevente ao tema, vendo-o por outro ângulo.

acácia rubra,
É bom ter memória do passado para o poder confrontar com o presente.
bj

Manuel Marques,
Obrigado pela sua presença e pela sua opinião, amigo.
Abraço.

VASCODAGAMA disse...

A porta estavza aberta, espreitei, e tomei a ousadia de entrar;
Gostei

VOU VOLTAR

Janita disse...

Olá amigo Jorge.
Belíssimo texto que retrata de uma maneira clara, precisa e real os tempos negros da fome e da carência de quase tudo, da maioria do povo português, durante quase todo a século passado.
Comparo esses tempos difíceis vividos pelas gentes de Trás-os-Montes,onde o clima agreste já era castigo suficiente, com a vida dura e tão sacrificada do povo alentejano.
Foi precisamente nos anos cinquenta e sessenta que se deu início ao forte fluxo migratório, levando muitas familías a abandonar a sua terra natal e o trabalho na agricultura, procurando melhores dias nas cidades e no trabalho nas indústrias que começavam, por essa altura, a ter um franco desenvolvimento no nosso país. Depois a partida para as Colónias de África, que o Jorge com melhor conhecimento de causa,já referiu com detalhes que eu desconhecia.

Sabe Jorge, eu sou uma admiradora incondicional de Miguel Torga. Os seus "Contos da Montanha" já foram lidos e relidos por mim vezes sem conta. Justamente, porque sendo ele também um transmontano, nunca nenhum outro escritor soube entender e descrever tão bem a vida dura desse povo rude, mas tão autentico e verdadeiro.

Dos nossos outros valorosos, mas infortunados "Navegadores" não vamos falar, pois não Jorge?
Fica para a próxima...
Um abraço grande e amigo da
Janita

Jorge disse...

serpai,
Já tive o prazer de visitar "Estados de Alma", deixei lá a minha admiração sobre este maravilhoso trabalho de equipa, que identifica os nossos dois países, confirmado pelo "selinho da amizade".
Um abraço.
J

Milhita disse...

Um abraço amigo, uma calma que transpira da história que nos faz ser quem somos.
Um abraço por cada outro que me vais deixando e pela memória que perdura nas almas respirantes, como a tua!

Jorge disse...

acácia rubra,
Viajei também, no Moçambique, semelhante ao Angola, e no Príncipe Perfeito como, à frente, refiro à Laura.
J

Amigo Osvaldo,
A enxada [que não era pequena] era o ganha pão do trabalhador rural na altura.
Um abraço.

Laura,
Grato pelo comentário amável e sensível.
Viajei também no Principe Perfeito, de e para Moçambique, em 1965, 1966 e 1972.
Brevemente tentarei escrever algo sobre isso.
Um abraço amigo.
J

Rê Amiga,
Pois é, agora continua a haver miséria, embora seja muitas vezes envergonhada, com mais apoio do estado e dos organismos de solidariedade social: no entanto,todos nós somos responsáveis para com os outros e, por vezes, quem menos tem é quem mais ajuda.
bj amigo,
J

Multiolhares disse...

Hoje em dia falamos muito de como o país vai, mas a verdade é que a uns bons anos atrás a pobreza era generalizada a fome batia à porta a todo o instante,as roupas eram remendadas e tinham de durar, enfim... tempos que esperemos não mais voltar
beijinhos

Janita disse...

Amigo Jorge.
Eu sei que a amizade é como o respeito, não se pede nem exige: merece-se.
Notei com tristeza, a sua ausência no meu último post e o facto de ainda não me ter dado aquelas habituais palavrinhas que tão gentilmente deixa ficar a todos os comentários que lhe são feitos.
Será que deixei de merecer a sua amizade? Por favor Jorge, não me deixe ficar nesta incerteza.
Beijinhos

Jorge disse...

Viva Vitor,
É bom ter o amigo neste cantinho à beira-mar, credencia este espaço com os seus ponderados comentários.
O interior transmontano esteve e ainda está esquecido no seu isolamento inóspito daí todas essas enormes dificuldades da população, na sua generalidade, muito embora a actualmente a situação tenha evoluido positivamente.
Um abraço com toda a consideração.
Jorge

Valéria,
Obrigado pelo seu amável comentário.
bj

Vivian,
Bem-vinda, obrigado pela sua presença.
abr

FlorAlpina,
Gostei do seu comentário, conciso e preciso.
bjis

VASCODAGAMA,
Bem-vinda, Azimute, em Sines, Terra de Vasco da Gama, é uma porta sempre aberta para si. Volte sempre.

Milhita,
Presença sempre agradável no Azimute, procurarei retribuir.
Um abraço amigo.

Jorge disse...

-Ó!... Ó... Amiga Janita,
Zangado eu? Não é possível...
Procuro comentar sequencialmente; por vezes, descuido-me um pouco [privilégio da idade], nada mais do que isso.
A sua opinião e partilha são indispensáveis.
Este seu comentário, é muito pertinente.
Também sou admirador de Miguel Torga, transmontano rijo como granito, não só por ser um grande escritor, mas também por ser médico, como meu pai o foi em Trás-os-Montes, em meados do século passado; só que não foi escritor, mas sim lavrador e... marinheiro depois dos seus 65 Anos.
bjis
J

Multiolhares,
Grato pela sua presença.
É isso mesmo, minha amiga. Embora a pobreza não seja desse grau e tâo generalizada, ainda existe e, em grande parte, envergonhada.
bjis
J