Porto de Sines

Porto de Sines

terça-feira, 22 de junho de 2010

S. João do Porto


Eu sou do tempo – o saudoso tempo da minha mocidade – em que o S. João do Porto era, para um portuense da minha geração, uma multiplicação de alegria, uma sensação de estar ligado aos outros, a imagem das cascatas de musgo e bonecos de barro, o ritual dos balões, os sons dos bailaricos, sardinha assada, broa e manjericos, culminando com o fogo de artifício a estralejar no rio Douro.
Velhos e novos não se deitavam, na noite de todas as licenças.
Toda a gente saia de casa durante toda a noite, saudando-se rostos desconhecidos que se falavam e sorriam, subitamente felizes e com um alho-porro na mão e misturar-se com uma imensa maré de gente, seguindo com essa multidão - desde a torre dos Clérigos até à praça da Batalha e às Fontainhas, de Matosinhos à Ribeira, passeando também pelo Palácio de Cristal…
Ninguém se importava com as cacetadas de alho-porro, e, com a entrada mais tarde, dos martelinhos de plástico – parece que estavam mesmo a pedi-las…
Rapazes e raparigas de mãos dadas rindo e cantando sem parar.

A noite era longa mas ninguém arredava pé até chegar a luz do dia, acabando por se tornar a noite mais curta do ano.



Nas Fontainhas acabava o barulho da festa.


Lentamente, esquecidos de tudo, regressam a casa.

25 comentários:

manuel marques disse...

Bom São João para si.

Abraço.

Osvaldo disse...

Caro Jorge;

Que saudades das festas de São João na minha terra.

Era a alegria de toda uma região nas festas que se seguiam ao Santo António e que se completavam com a festa de São Pedro.

Obrigado por me recordar momentos de felicidade da minha meninice.

Um abraço.
Osvaldo

acácia rubra disse...

Teria aí uns dez anos fui ao S. João. Foi a única vez que o vivi.

Lembro-me de não se poder quase andar de trazer o alho na mão e me ter divertido imenso.

Ah, e lembro-me também de ter sido a minha primeira noitada!

Beijo

Regina Rozenbaum disse...

Jorge, amado!
Apesar de algumas diferenças na maneira, costumes no comemorar, fica a saudade desses tempos que nos alegrávamos com brincadeiras simples e saudáveis nas ruas de nossos bairros, praças. Nem me lembro, quando foi a última vez que vi nos céus, os balões coloridos enfeitando ainda mais o que por obra do PAI já é uma beleza! Se fosse então em noite de lua cheia...era pura magia! Hoje, por aqui, as festas são "super sofisticadas", em clubes fechados, e decoração feita por profissionais... Tempos bem modernos, cheios de nada!
Beijuuss n.c.

www.toforatodentro.blogspot.com

Luís Coelho disse...

Hoje estes santos populares perderam a sua importância aqui pelas aldeias.
No Porto e em Lisboa mantém-se a tradição por ser o dia da cidade e também pela parte civil organizada pela Câmara.

Janita disse...

Olá meu amigo Jorge.
Apesar de algumas pequenas alterações, a tradição ainda é o que era no "seu tempo"...
Nós, os desse tempo, é que já não temos pedalada para aguentar a noitada. Quando o meu Luis estava cá no Porto festejamos muitas vezes o seu aniversário a ver o fogo de artifício no Cais da Ribeira. Agora, o S. João para mim já perdeu a graça.
Desta vez não tive oportunidade de comentar a sua "Cidade do Cabo", mas lá irei. Uma goleada daquelas não pode ficar sem uma referência.

Sabe Jorge, comigo as coisas, por vezes, parecem do tipo: um passo à frente e dois atrás.
Na segunda-feira, vim do Hospital com noticias muito animadoras sobre o meu problema dos olhos e no fim do dia fui para outro, junto com o meu neto na ambulância, devido a um acidente com o carro em que ele seguia com o pai e que ficou numa amálgama de chapas e ferros retorcidos. Foi um milagre o garoto ter saído ileso.
Quase não arranjava disposição para fazer o meu post de S.João.
Desculpe Jorge, mas senti vontade de desabafar consigo.
Um abraço e Bom S.João.
Janita

Valéria Sorohan disse...

Você fez dos momentos vividos uma beleza poética, e sigo o resto do meu dia encantada com tudo o que você proporcionou em seu lindo relato.

BeijooO*

Vitor Chuva disse...

Olá Jorge!

O meu São João da meninice morava na Figueira,onde a noite só acabava no dia, depois de um banho na praia.
Como adulto, o encanto e atracção por estas festas perdeu-se um pouco: confesso não ser muito dado a barulhos; prefiro a companhia tranquila dos amigos à volta das sardinhas assadas e da conversa animada.
A sua descrição está linda, sentida, própria de quem a viveu; parabéns!

Um abraço amigo.
Vitor

Janita disse...

Olá Jorge.
Quando fiz o comentário anterior, que foi logo após a publicação do meu post, ainda não tinha lido o seu.
Em relação à minha mágoa por não ter posto o nome do Santo ao meu filho e o Jorge dizer que tem um neto com esse nome, eu de acordo com a minha filha, quando nasceu o meu primeiro neto, filho dela e que tem agora 10 anos, assim um pouco à guisa de compensação, ficou a chamar-se João Pedro, ou seja, o nome dos dois santos que vêm a seguir a Santo António.Parece que isso lhe trouxe sorte...

Para não voltar ao seu post anterior, quero dizer-lhe que estou a "torcer" para que a nossa selecção repita a proeza no próximo encontro com o Brasil.

A sua quadra teve um sentido muito pertinente, porque na verdade, na bizarra cascata da Vida somos meras marionetes, uma vez que o homem põe mas Deus dispõe.
Obrigada Jorge, pela sua presença amiga no meu cantinho.
Beijo da Janita.

Jorge disse...

Manuel Marques,
Grato pela sua presença amiga no "S.João do Porto".
Abraço.

Olá, Osvaldo,
Agora, só falta o S.Pedro...
As memórias da nossa terra e da meninice são as mais profundas, revivemo-las durante a nossa vida...
Um abraço,
Jorge

acácia rubra,
Foi bom ler o seu comentário, minha amiga. A presença da "acácia" transmite energia positiva ao Azimute.
A criança eterna acompanha-nos sempre...
bjis
J

Rê Amiga,
É através do S. João que evocamos a passagem do solstício de Verão. A natureza aquece, nas festas do Santo...
Compus o S. João por saudade, por nostalgia. Há anos que já não vou ao S. João do Porto. Aproveitei e, assim, tenho as minhas amigas e amigos mais perto.
Bj amigo,
J

FlorAlpina disse...

Olá Jorge,
Passei por aqui, para agradecer as palavras de carinho e força que deixou no meu cantinho...soube-me bem ler...

Gostei, vou voltar!
E do S.João?...que saudades...

Bjs dos Alpes

Jorge disse...

Flor Alpina [é um nome duplamente lindo],
Creia que fiquei feliz com o meu modesto contributo.
A experiência do sofrimento torna-nos solidários, é ela que nos liga aos outros.
Um dia iluminado para o seu céu alpino.
Bjis
J

Jorge disse...

Amigo Luis,
É verdade o que diz; os tempos mudaram e nós, cada vez mais [felizmente], somos espectadores dessa mudança...
Abraço.

Janita,
Foi bom ler os seus comentários.
Ainda bem que o seu neto ficou ileso do acidente.
Por vezes, parece que num momento tudo desaba em cima de nós... Há que tomar fôlego, fazer o possível para contrariar essa tendência, dar um passo atrás, para poder dar dois em frente [o João Pedro - dois em um - é um feliz exemplo].
Há minutos, Portugal e o Brasil terminaram o jogo empatados a zero [portaram-se benzinho...]. Grão a grão... E... Portugal segue em frente... Continuemos a torcer pelos nossos "navegadores".
Um abraço amigo,
Jorge

Valéria,
Grato pelas amáveis palavras que aqui deixou.
bj
J

Aqui - Ali - Acolá disse...

Olá Jorge bom dia:

De retorno a esta comunidade aqui estou de novo onde ao ler este post posso dizer que o S. João do Porto ainda é fantástico embora de maneira um pouco diferente aos tempos de outrora.

Aqui há bairrismo puro e alegria a rodos onde pelo menos neste dia, se possa esquecer de tristezas passadas
com a harmonia e grande festividade que por aqui existe.

Um bom post que marca o relevo de um dia que perdurará para sempre na vida de todos nós.

Abraço e bom fim de semana.

Jorge disse...

Viva Vitor!
É bom tê-lo de volta. Já expectava pelos seus comentários amáveis, tranquilos, especiais, únicos.
Também já aprecio mais a tranquilidade que os bulícios festivos, mas não dispenso as sardinhas assadas na brasa.
Um abraço com amizade retribuida.
Jorge

Jorge disse...

Olá...! Aqui Ali Acolá,
Agradável surpresa, foi bom ler o seu comentário.
Ainda bem que o S. João do Porto continua a ser fantástico no seu frenesim popular, que é a contradição do isolamento a que, por vezes, nos remetemos.
Um abraço amigo,
Jorge

Graça Pereira disse...

A primeira vez que fui ao S.João do Porto ( era novidade para mim...acabada de chegar de Moçambique...) aperaltei-me toda, sapatos de salto, carteira (onde as mulheres metem o mundo...) já estás a ver o final... fiz o resto da noite...descalça!! A partir daí, fato de treino e sapatilhas confortáveis e dinheiro no bolso!!
Desde que fiquei sem o Eugénio, vou a festas de Amigos de cujas varandas se vê perfeitamente o fogo!
Beijo amigo
Graça

Fabrício Santiago disse...

Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Fabrício e cheguei até vc através Zambeziana. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir meu blog Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. Estou me aprimorando, e com os comentários sinceros posso me nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs



Narroterapia:

Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.


Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.


Abraços

http://narroterapia.blogspot.com/

Maria Ribeiro disse...

AZIMUTE: bom Domingo para si, meu querido amigo Jorge!
BEIJOS DE
LUSIBERO

Janita disse...

Olá Jorge.
Passei só para lhe deixar um abraço e desejar-lhe um Bom Domingo.
Pelo menos futebol é o que não vai faltar, certo?
Beijos

maybe disse...

I'm appreciate your writing style.Please keep on working hard.^^

Multiolhares disse...

Penso que antigamente era tudo mais genuíno, hoje em dia não sei explicar mas algo se perdeu, no entanto as tradições são mantidas e isso é importante é como se uma parte de nós tenha continuidade
beijinhos

Jorge disse...

Graça Amiga,
Sempre grato pelo estímulo da tua presença. O Azimute é uma porta aberta, recebendo sempre, de passadeira vermelha, uma "Pessoa" como a Zambeziana.
bj amigo
J

Jorge disse...

Fabrício,
O meu amigo é, e será, sempre bem-vindo, ainda mais tendo a nossa amiga Zambeziana como ponte.
Grato pelas palavras amáveis que aqui deixou.
Escrever é importante, de per si, liberta-nos, descontrai-nos, surpreende-nos até.
Segui-lo-ei com atenção.
Abraço.

Jorge disse...

Multiolhares,
Não obstante maior artificialidade actual, a festa continua a passar-se na rua, o povo sorri e a vida esquece.
bjis
J