Porto de Sines

Porto de Sines

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Vasco da Gama

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
.............................................
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(Fernando Pessoa)

4 comentários:

Tudo em Pratos Limpos disse...

Tal como o Vasco da Gama eu parti à descoberta do mundo! Depoi de ter andado pelo Médio Oriente e feito quase toda a Europa, encontro-me agora ancorado onde nunca devie ter lançado a âncora! Presentemente, um dos membros fundadores da Rádio Alfa de Paris, ando a tentar passar o Cabo Bojador!

Eu ninca devia ter deixado Portugal! Já lá vão 50 anos! Se tivesse ficado em Portugal hoje poderia ser um grande actor. Comecei uma carreira com o Artur Duarte no "Encontro com a Vida", com o Rogério Paulo, um grande amigo meu, mas os ventos do orte atiraram comigo para os contrafundos do mundo! Gostaria de voltar para Portugal, mas sinto-me aqui acorrentado em Pariis, à espera que me enviem um anjo, pis que anjinho já eu fui e continuo a ser! Adoro Sines, onde passei várias vezes, mas tudo agora me parece tão longe de alcançar!

Tudo em Pratos Limpos disse...

Adorei Sines e adoro Fernando Pessoa, que deixou este mundo quando eu a ele cheguei!

AMIGO



Um destes dias
Dou um salto ao cemitério
Vou visitar-te!
Ah! Já não posso
Já lá não estás!
Estavas lá tão bem
Campa rasa pacata
Mas levaram-te a Belém
Para uns pastelinhos de nata.
Que chatos!
Tinhas nos Prazeres
Sem grandes aparatos
Onde muito bem jazeres
Muito bem estares
Finalmente repousares
Pés juntos sem sapatos.
Isto depois de um enterro
Qual desterro
Com meia dúzia de gatos!
Nesse mesmo dia
Tres meses eu fazia
Tres vezes eu batia
À porta que se me abria
À porta que se te fechava!
E a porta se entreabria
E a vida me sorria
A vida me mentia
A vida me enganava!
E nesta vida ainda estou
Nesta vida ainda sou
Tudo o que me inventei.
Deixa lá
Quando me for embora
Só deixarei de fora
O muito que fumei!

Pobre de ti coitado
50 anos mais tarde
Sem borburinho nem alarde
face ao teu pouco destaque
Enfiaram-te um novo fraque
Que te fica muito bem
Invólucro das tuas ossadas
Teus heterónimos
E pseudónimos
Tuas últimas ramboiadas
E levaram-te para Belém
Mais perto das “tabacarias”
A venderem as tuas poesias
Como tu
Agora muito bem encadernadas!
Deram-te outra crista
Outra dimensão
Fizeram de ti alpista
Para muito oportunista
Pobres aves de rapina
Olhos postos no chão
Gotas de atropina
Lágrimas de estearina
Remorsos sem perdão!

Claro
Há os que te estimam
Os que te respeitam
Os que te admiram
Te respiram
Te veneram
Te adoram
E os que a ti se sujeitam!
Sem esquecer os que te venderam
Te vendem e exploram.
Sim!
Exploram!
Primeiro foram os melões
Depois foi o Camões
Que hoje menos se apregoa
E como tudo correu bem
A coisa dava dinheiro
Levaram-te fora de portas
Portas e janelas!
Digressões pelo pais
Exportado para o estrangeiro!
Good morning sunshine
Bloody Caravelas!
Pobre Poeta le voilà
Ainsi devenu célèbre
Malgré soi!
Hoje nos Jerónimos
Grandónimos
Com seus gráficos epitáficos
E àmanhã a estas horas
Onde estará?

Amigo multifacetado
Que tantos personagens criaste
Personagens isolados
Para te sentires menos desamparado
Pobre amante assexuado
No teu cubiculo enclausurado
Em teu silêncio masturbado!
Apenas te encontraste
No que nunca escreveste
Nem sequer pronunciaste
Mesmo pensá-lo não ousaste!
Ophélia
Efémera doce quimera
Não passou de platónico incesto
Manifesto
Pseudo sexual
Devaneio sentimental
Intelectual?
Algo um tanto indigesto
Que não fez nem bem nem mal!
Apenas discreto refúgio
Apanágio subterfúgio
Ardil contraproducente
Para te enganares a ti
E embalar a gente.
Perto
Ou longe de Mário
Tua vida foi ermo calvário
destinos malogrados
Pelas convenções apartados
Mordidela de serpente!

Mesmo roto
Foi ele
António Botto
Quem arrojou vivê-lo
Dizê-lo
Escrevê-lo
E até mesmo publicá-lo!
O mais corajoso de todos os verbos
O mais soberbo de todos os soberbos
O verbo “assumir”!
Sem calcular
Sem medir
Com todos partilhar
O verbo ser
E sê-lo ineiramente
Sem desvios
Atavios
Sem se renegar
A si proprio mentir
Si mesmo iludir!
Tu
Apenas te procuraste
No absinto onde afogaste
O presente dum futuro já passado!

Amigo multisolitário
Pálidos dedos de ervanário
Em mim te prolongaste
No muito que há em mim de só
E que como tu um dia será pó!

Amigo!
Na minha agonia
Quer de noite quer de dia
Na minha insónia sempre pernoitaste!
Dorme teu sono eterno
Que seja só meu este inferno
Onde sòzinho me deixaste!



Rogério do Carmo
Paris, 4/6/1990

jorge disse...

Rogério do Carmo,

O seu comentário revela uma certa nostalgia, muito portuguesa, muito nossa.

Em 1958 dobrei o Cabo Bojador e o das "Tormentas", rumo a Moçambique.

Também ... "27 dias eu fazia".., quando ..."a porta se fechou" ... para Fernando Pessoa.

Todos nós temos direito a ser felizes. A felicidade é uma coisa relativa e efémera, como uma gota de orvalho numa folha. O homem é e será eternamente insatisfeito. A única coisa que lhe transmite felicidade interior é a prática do bem que se reflita na felicidade de outrem. O anjo quando menos esperarmos chegará e nas suas asas voaremos.

O seu poema revela beleza e sensibilidade surpreendentes. Tem influência e talento de ... "Pessoa", seu ... "Amigo". Obrigado pela generosidade de me ter proporcionado a sua leitura.

Sines é a Terra de Vasco da Gama! Uma bela cidade, a minha cidade adoptiva, uma cidade como costumo dizer ... "à minha medida"...

Já visitei o seu blogue e ...pasmei! Não ousei comentar, mas tentá-lo-ei.

Cordialmente

jorge disse...

Tudo em Pratos Limpos disse...
Jorge: Não sei o que se passa comigo! Sinto que tudo o que você esceve e é sou eu! Gosto de tudo o que você gosta! Da literatura, filmes, e música! I wish I could send you and Angel!

As leviandades de ontem serão as recordações de àamanhã! No meu caso, agora que ando a tentar escrever as minhas memórias, são as recordações de hoje e de todo o sempre! As long as I live!
Abraço!

Rogério carmopat@dbmail.com

9 de Janeiro de 2010 14:11