Porto de Sines

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quinta-feira, 6 de maio de 2010

O "Aníbal Ferrador"

Os piões e a baraça

A caixa das ferramentas



Naquele tempo, os artífices eram designados pelo nome próprio agregado ao da profissão: "Aníbal Albardeiro", "Artur Alfaiate", "Fernando Latoeiro", "Alfredo Sapateiro", etc. , ou então, prevalecia uma característica do aspecto físico: "João Grande"[barbeiro], "Horácio Manco"[ferrador] e outras designações: "Pressas"[serrador], "Fala Barato"[carpinteiro] e por aí adiante...

Era ao "Aníbal Ferrador" que, eu e os outros garotos, recorríamos para substituir os ferrões de origem dos nossos piões, por outros maiores e mais afiados, a fim de competirmos no jogo do pião, dando maiores nicas e por conseguinte infligindo maiores estragos, aos dos nossos "adversários". [Alguns preveniam-se com outro pião só para levar nicas].
O bom do Senhor Aníbal, tinha uma pachorra infinda para aturar as nossas madurezas.
Quando tinha trabalho na forja e/ou na bigorna, dizia: " Deixem pra aí os piões e venham precurá-los daqui a um cibo.
E, daí a um cibo, lá estávamos novamente para levar os piões prontos artilhados com ferrões de competição, novezinhos em folha.
Quanto é Senhor Aníbal? - peguntávamos. Não é nada, pagam soitordia.
Era também o "Aníbal Ferrador” [pai do Albano, meu colega de classe, na Escola Primária] , sempre bonacheirão, atencioso e bem disposto, [não dispensava os seus copitos do tinto e de aguardente bagaceira destilada na alquitarra ], quem substituía, com muita competência, as ferraduras da Carriça - uma magnífica égua, de grande estimação, do meu pai.
Então, de costas viradas para o animal, levantava-lhe a pata e começava por desferrá-lo, arrancando os cravos da ferradura, a fim de a soltar do casco. Seguidamente, sempre com a caixa da ferramenta à mão, aparava a base do casco com um formão, procurando adaptar-lhe a ferradura nova em ferro, afeiçoada prèviamente na bigorna. Uma vez adaptada a ferradura, fixava-a com os cravos a martelo, que apareciam mais acima no casco, dobrando-os com o martelo e cortando-os com a turquês. Por fim, com a grosa, limava o rebordo do casco à face exterior da ferradura.
Ferrar um cavalo demorava cerca de uma hora. As más ferrações podem deixar cavalos coxos.
Os bois e alguma besta mais brava, tinham que ir ao tronco, situado no Eirô, ao fundo das traseiras do adro da Igreja, onde eram ferrados com a pata amarrada com uma soga.
O meu colega Albano, feita a 4ª classe, emigrou para o Brasil...Nunca mais os nossos caminhos se cruzaram na estrada desta vida.
... Cresci, estudei, cabulei e... um dia, fiz as malas, evadi-me das minhas raízes, embarquei no Cais de Alcântara, a bordo do paquete Moçambique, na rota de Vasco da Gama, até... Moçambique.
O "Anibal Ferrador" ficou na amnésia selectiva da minha memória.
Sete anos depois retornei, de licença graciosa, à Metrópole.
Num fim de tarde, depois da sesta [costume estival, naquele tempo] ia a pé com o meu pai para o campo, quando a mulher do "Aníbal Ferrador", muito aflita, se lhe dirige: "Senhor doutor o meu homem parece que tem a atriz [icterícia].
O médico foi ver o doente e constatou que padecia de cirrose, já num estádio tão adiantado que, no dia seguinte, o acompanhou de comboio até ao Porto, deixando-o internado e recomendado no Hospital de Santo António.
Passados dias, já noitinha, passou uma ambulância na rua e, pouco depois, o médico foi chamado para ir ver o "Aníbal Ferrador".
De regresso a casa, após um longo silêncio, o médico desabafou: "O Anibal Ferrador" não deve passar desta noite". E foi assim que, no dia seguinte, o bom do Senhor Aníbal, que evoco com muito carinho e emoção, entregou a alma ao Criador...

19 comentários:

Uma Brasileira disse...

Belo texto, Jorge...


Em meu país, Brasil, também temos o costume de agregar o nome à profissão.

É um costume que vem dos meus avós e depois meus pais e agora nós.

E olha que vivo em um cidade grande. 350 000 habitantes.

Quanto à foto com os peões... Me recordo de bem pequena ver meus irmãos mais velhos, em disputa acirrada para ver quem derrubava o peão do outro.


Ah... Jorge! Isso me faz lembrar minha mãe, já falecida, que estava sempre a chamá-los para estudar.

Saudades... Muitas saudades.


Um abraço do tamanho do oceano que nos separa.

manuel marques disse...

Excelente texto,fez-me recordar outros tempos.Grato pela partilha dos seus escritos.

Abraço.

Regina Rozenbaum disse...

Jorge, amado!
Vir aqui nessa semana tão mais especial que todas, ler esse post, deu um aperto no coração...Memórias, lembranças, de tempos, pessoas, que não voltam mais (pelo menos da forma que a maioria conhece). Obriagada por sua visita... Estava com saudades...
Beijuuss n.c.

www.toforatodentro.blogspot.com

direitinho disse...

Gosto muito destas histórias e contaste tudo com muito brilho.
Homens que sempre beberam e julgaram que nada lhes fazia mal.
Aquela parte de se dispor a arranjar os piões dos garotos foi a parte melhor.

quicas disse...

Texto encantador, pela ternura das personagens, pela sua autenticidade, pela simplicidade da narrativa, vernácula o quanto baste para nos transportar até esses tempos, quiçá demasiado distantes, de suave e pacífica existência nas nossas remotas aldeias!
Abraço

Vitor Chuva disse...

Olá Jorge!
Há figuras que ficam para sempre associadas ás nossa memórias, que num dado momento cruzaram as nossa vidas.E esta do Aníbal Ferrador por uma maioria de razão, dado a sua atitude simpática e prestável para quem na altura precisava dos seus préstimos para arranjar coisa à altura tão importante ... como um simples pião!
Pode parecer exagero a esta distância, mas, de facto, um pião era então mesmo coisa importante para uma criança; todas elas (nós) possuiam pelo menos um, e aquelas mais "endinheiradas" ainda o tal pião das nicas, que, diga-se
em abono da verdade, era uma certa forma de fazer batota, poupando o pião de jogo às ditas !
Boas lembranças eu tenho do pião ... e do tempo em que o jogava.
Gostei de ler:A história está muito bem contada.

Um abraço amigo.
vitor

Aqui - Ali - Acolá disse...

Um post com muito valor.

Tempos de outrora em que os nomes faziam as pessoas distintas não só pelo próprio nome em si como também pela própria arte que cada um tinha.

O pouco que hoje ainda existe dessas artes tão valorosas não são vistas nem se dá o valor que elas merecem.

É o poder dos tempos em que o próprio homem os modificou quase que tornando um mundo artificial em que hoje vivemos.

Abraço, bom fim de semana.

Maria disse...

Amigo, adoro visitar o seu blog, faz-me sentir criança novamente. Aproveito para desejar um excelente fim-de-semana.

Obrigado pelas suas visitas ao meu humilde cantinho, é sempre um prazer recebê-lo.

“A glória da amizade não é a mão estendida, nem o sorriso carinhoso, nem mesmo a delícia da companhia. É a inspiração espiritual que vem quando você descobre que alguém acredita e confia em você.” (Ralph Waldo Emerson)

Bjs do tamanho do infinito
Maria

Jorge disse...

Uma Brasileira,
Obrigado pela partilha com o Azimute.
Pindamonhangaba (não me esqueci) deve ser uma bonita e cosmopolita cidade.
Recordar é viver...
Saudações luminosas.

Manuel Marques,
Ainda bem que gostou. A partilha é, para mim, não só importante, mas também motivo de satisfação.
Um abraço.

Rê Amiga,
Obrigado pela estimulante visita.
Matar saudades é fácil, basta um clique e já está!... Alivia o coração.
Gosto de recordar episódios marcantes da minha infância e adolescência. Fico satisfeito por ter eco nas suas recordações.
Bj amigo.

Amigo direitinho,
Aguardo sempre a tua opinião com expectativa.
A "pinga", naquele tempo, e ainda agora, levou muita boa gente pra sepultura.
Os ferrões (a parte mais fina), eram postos em brasa nos peões.
Jogávamos ao pião no adro da igreja. A oficina do Senhor Aníbal, ficava a meia encosta, nas traseiras do mesmo.
Um abraço.

Quicas,
Reconhecido pela sua amável opiniâo.
A minha aldeia é remota, mas por vezes, de pacífica tinha pouco. Havia disputas, entre clãs familiares, que chegavam a "vias de facto".
Um abraço.

Viva Vitor!
O pião e a baraça (feita por nós com cordão) que ficava enlaçada no dedo para o jogar, eram na realidade muito preciosos para nós.
Agora só resta, por vezes, sermos "o pião das nicas".
Um abraço, com amizade.

Aqui Ali Acolá,
Obrigado pela sua presença e partilha.
As voltas que a vida dá, conduziram ao desaparecimento gradual dessas nobres e dignas profissões. (Um ofício era uma... "Arte"). As máquinas substituiram o seu cunho humano e artístico.
Um abraço.

Maria insubstituível,
O prazer é recíproco e agradável.
Acreditar é tudo o que há mais positivo na vida. É meio caminho andado na consecução dos nossos objectivos.
Infinitamente grato.
Bjis.

UM BOM FIM-DE SEMANA PARA OS MEUS
AMIGOS!!!
Jorge

Jacque disse...

Oi, vim conhecer seu Blog... Vim convidar pra ver meu novo vídeo., homenagem ao PERÚ. No Blog: SENTIMENTOS
http://sentimentosjacque.blogspot.com/

Beijo

Luiz Antonio disse...

Olá Jorge!
Lendo o seu texto regredi no tempo e me vi lá em Vilarinho, exatamente ao lado do Anibal ferrador. Eu gostava de ajudar a tocar o fole que oxigenava e avivava as brasas. Era bonito ver o ferro vermelho sendo moldado pelas mãos habeis de artista. Sim, porque tudo aquilo era artesanato.
Parabéns pelo seu texto. Ao lê-lo, é impossível deixar de viajar ao passado e reviver aquele tempo em que todos nós éramos felizes e não sabíamos. Um grande abraço do amigo
Luiz António

puga assis disse...

Ninguém como tu me transporta ás nossas raizes!!!
Os casos de cirrose eram bem frequentes, infelizmente, e o grande responsável continua a ser a agua-ardente, bebida de intenso paladar e aroma.
A má destilação torna-a tóxica pelo que devia ser declarada não comestivel.
Grande abraço.

Multiolhares disse...

Outros tempos em que com muita simplicidade brincava-mos quase sem brinquedos, e quem sabe até nos sentia-mos mais felizes na liberdade que as nossas crianças agora não tem.
Existem essas pessoas que fizeram parte da nossa infancia, que nos deixam recordações, mas também elas um dia acabam por partir, assim são os caminhos da vida
beijinhos

Kimbanda disse...

Olá Amigo e estimado Jorge:
Excelente narrativa das suas vivências e que nos deixa também termos não utilizados e por muitos esquecidos. Aqui ficam nos seu testemunho desta história saudosa e que nos remete a nós próprios a outras recordações.
Uma óptima semana e deixo-lhe o meu kandando amigo.

Jorge disse...

Jacque,
Obrigado não só pelo seu convite, mas também pela sua inscrição como seguidora, aos quais vou seguramente corresponder.

Luiz António,
És, para mim, um caso muito especial, não só pela vivência comum em Vilarinho, mas também por ser amigo do teu saudoso Pai, que muito me honrou com a sua amizade e solidariedade.
Por favor, põe de parte esse tratamento de você, (faz-me mais velho) uma vez que és o portador do testemunho dessa amizade.
Um abraço do tamanho do Oceano que nos une.

Zito,
Companheiro na caminhada da vida. A tua presença é sempre aguardada e
indispensável.
Obrigado pela tua opinião.
Abração.

Multiolhares,
Obrigado pelo acompanhamento amável do Azimute.
Os caminhos e os desígnios da vida são insondáveis. Temos que saber usufruir do presente.
Bjis

Viva Amigo Kimbanda!
A sua opinião solidária é sempre um estímulo.
O meu amigo está nos lugares cimeiros desta partilha.
As nossas memórias dão-nos alento para encararmos o presente e prosseguir no futuro, em que está incluida a companhia do meu amigo.
Kanimambo.
Um forte abraço e uma semana bem sucedida.
Jorge

Valéria disse...

Oi prazer, nessas minhas andanças, não sei como, vim para aqui. Li seu conto, Ficção ou não, gostei pra valer.

BeijooO'

Jorge disse...

Valéria,
Foi o azimute, da sua caminhada na vida, que a trouxe aqui.
Foi bom ter gostado do conto, que é da vida real, confirmado, em 2 comentários que antecedem, por "Luiz António" e "puga assis", que conheceram e conviveram com o Senhor "Aníbal Ferrador", até 1965(ano do seu falecimento).
Bj

José Sousa disse...

Oi... tudo bem? Estive aqui e gostei de seu blog, e muito do que escreve. Adorei, vou ser seu seguidor. Conheça os meus blog's
www.congulolundo.blogspot.com
www.queriaserselvagem.blogspot.com

Um grande abraço

Jorge disse...

José de Sousa,
Desculpe o meu atraso. Ainda bem que gostou. Grato por ser seguidor. Procurarei retribuir.
Outro abraço.
Jorge