Porto de Sines

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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Vilarinho da Castanheira - A Bola com Câmara-de-Ar



A princípio, depois das aulas e principalmente nas férias escolares, jogávamos futebol com bolas de borracha [não duravam muito, furavam-se e rebentavam fàcilmente, atendendo aos «bons tratos» que lhes dáva-mos].
As balizas eram definidas por duas pedras e a linha de golo por um risco  entre elas.
O recinto de jogos era o largo em frente da capela da Senhora da Fé até ao cruzeiro sobranceiro à estrada.

Um dia, nas férias da Páscoa , o meu Padrinho surpreendeu-me, abrindo a porta da cortinha da casa, atirando uma bola na minha direcção, dizendo: «Toma lá para dares cabo das botas ao teu pai!».  Foi a prenda da Páscoa que ele me trouxe do Porto. Não queria acreditar no que via. Era uma bola com câmara de ar.

Foi a primeira bola, daquele género, que apareceu em Vilarinho da Castanheira, fez sucesso. Era de gomos em couro, com a famosa câmara de ar no interior, enchida antes dos jogos com uma bomba de bicicleta. Como dono da bola era acompanhado com entusiasmo pela rapaziada da aldeia.

Organizamos uma equipa de futebol da terra , que designamos por VILARINHO. Cada um equipava-se à sua maneira, preferencialmente de camisola e calção branco [o equipamento considerado mais acessível a todos].

O campo de treinos e de jogos passou para um local mais amplo,  perto da encruzilhada à saida da povoação. Era inclinado, situado num terreno baldio. As balizas passaram a ser constituidas por dois postes encimados pela trave. Melhoramentos notáveis, que eram motivo do nosso orgulho e satisfação.

A bola mudava tudo. Permitia a troca, as brincadeiras, o riso. No fim humedecíamos as botas para disfarçar as esfoladelas, evitando assim  raspanetes ao chegarmos a casa.

Eu era o «dono da bola», tinha vários privilégios e também obrigações. Uma delas era ensebar a bola depois do jogos. Jogava sempre de princípio [aliás jogavam todos, dado que não eram demais]; conjuntamente com outro parceiro, ao meu nível, escolhíamos as nossas equipas, pelo método do pé à frente do outro, até um pé ficar em cima do do oponente; então era o dono deste pé que começava a escolher a equipa e assim prosseguiamos alternadamente.

Havia poucos protestos, a malta aguentava, o prazer de jogar tolerava tudo. Batíamo-nos em intermináveis jogos de futebol. Quando havia algum desaguisado maior, parava o jogo e procurava-se um entendimento; caso contrário não se jogava mais. Bola debaixo do braço e toca de voltar para casa, ninguém se ficava a rir.

A nossa coroa de glória foram as vitórias por 1-0 e 4-0 sobre a equipa vizinha de Vale Torno. Os desafios tinham sempre numerosa e entusiástica assistência, que se distribuía e aplaudia à volta do campo. Árbitro não havia. Os capitães das equipas desempenhavam a função.

Os «heróis», entre outros, foram: António Febre – «o Ferrugem», os irmãos - Acácio e Zé Maria, os primos - Reinaldo Mesquita e Armando Mesquita, os irmãos - Acúrcio Marcos e Ramiro Marcos, Zeca - «Padre Zé» , João Morgado, Zé Silva – «Zé Bonito», Alberto Ruivo, João Morgado, Ramiro Moras, Álvaro - «Alvarinho» , Amável - « o 115», Adérito Moras e eu Jorge, como dono da bola, fazia ao mesmo tempo de seleccionador, treinador e capitão da equipa, jogava a avançado-centro. Os guarda redes eram «o Ferrugem» e o Zé Maria. Os restantes eram escalonados, de acordo  com assiduidade aos treinos, um pouco antes dos jogos .
Pretendo assim homenagear os meus amigos que ainda estão vivos  e a memória daqueles que da «Lei da Morte se foram libertando». 

Foram momentos inesquecíveis, incomparáveis. Éramos uma grande família.

[cajoco]
Imagem Google

13 comentários:

Regina Rozenbaum disse...

Nem tenho dúvidas que desses tempos tem muitas histórias lindas, como essa, para nos contar. Tempos, sinto eu, que o brincar era simples e constante em nossa infância. Vê bem o que faziam em torno de uma única bola?! Quantos se divertiam partilhando! Hoje, nossas crianças desaprenderam essa arte e isoladas são mini adultos, em frente de computadores e jogos eletrônicos. Quais serão as histórias que terão para contar?!!! Lastimo tanto, nem faz ideia!
Beijuuss, amado, n.a.

Graça Pereira disse...

Lembro-me da bola com câmara de ar...o meu irmão, teve uma! Quando muito crianças morávamos num bairro, onde todos se conheciam, com um pátio enorme e comum que era palco de mil brincadeiras e tambem de futebol! Por incrível que pareça eu, era a única rapariga que jogava à bola com os rapazes e fazia de tudo!
Era uma camaradagem saudável e familiar, como dizes! Saudades desses tempos que o teu post me trouxe à memória...Bem hajas!
Beijo
Graça

Laura disse...

Bolas, bolas para a bola com câmara de ar... ainda me lembro de ver os rapazes a encher as ditas com a bomba da bicicleta, e até me deixavam entrar nos jogos mas não durava muito...eu não parava de fazer asneiras, logo...rua ahhhhh, mas gostava mais de jogar aos berlindes e ao pião, minha nossa, que maria rapaz.

Recordar é bom e mais ainda ter coisas boas para recordar, há os amigos, os nomes, as alcunhas, e tudo vai ficando pelo caminho, os amigos vão-se perdendo por aí, e amanhã voltaremos a ficar juntos, porque a amizade e o amor, esses, nunca acabam...

grande e apertadinho abraço da maria rapaz que subia aos mamoeiros e lá em baixo havia sempre algum para os apanhar...

laura

acácia rubra disse...

Jogar à bola, nunca joguei.

Quanto à bola também me recordo dessas e de como era colocada e cheia, mas isso era lá com o meu irmão.

Sobretudo gostei da descrição do novo campo - inclinado.

Há coisas tão boas no que vivemos!

Beijo

Elena disse...

Bela historiae um bom exemplo para os jovens.
Obrigada pelo o seu comentario.
Um abraço desde Faro!

**♥✿-franciete-✿♥** disse...

Olá amigo, fico feliz por te-lo de volta, as suas histórias são sempre deliciosas pois são as recordações do passado que nos dão alento para seguir em frente.
É sempre bom lembrar dos nossos momentos que não voltam mais, beijinhos de luz nos seus dias...

Guma Kimbanda disse...

O plano inclinado deu-me que pensar, mas como a cada metade do jogo deviam mudar de campo, nessa ficavam empatados.

Bonita homenagem.

Recordações tão boas de quem brincou na rua e usava de criatividade e muito improviso.

Na minha rua jogávamos à bola, mas havia vizinhos que se queixavam e com alguma razão e lá vinha a policia. Tinha-mos de ter sempre alguém alerta para dar o sinal e saltar uns muros para não ser-mos apanhados.

Brincar ao pião, arco, macaca, lenço, ao rei manda, sei lá. Tantas as formas de convívio saudável.

Kandandos amigo Jorge, foi um prazer viajar no tempo através deste texto.

Janita disse...

Jorge Amigo.
Adorei as suas recordações de jogos dos seu tempos de menino.
Isso de jogos de bola nunca foi coisa que me atraísse, mas brincar na rua, saltar à corda, concursos de canto em que a apresentadora era escolhida por sorteio de papelinho e tanta, tanta brincadeira sem ter brinquedos...
Pois é, hoje têm tudo e não sabem brincar.
É bom passar por aqui e sair cheia de boas recordações.
Bonito texto.
Abraço muito amigo.
Janita

luis coelho disse...

Bom dia amigo
Que recordações encantadoras. Abriste a tua caixa de surprezas e de recordações. Esses nomes todos alinhados nas posições de jogo.
Confesso-te uma pontinha de inveja. É que não consigo lembrar-me de todos quantos entrámos, no dia 07 de Outubro de 1955, na escola primária.
Participei nestas lutas por amor à equipa e a glória de vencer, mas tantos dias com as lágrimas da derrota.
Deixo-te um abraço por tantas recordações.

manjedoura disse...

bela história
na minha aldeia, tinha-se de jogar na estrada, com pedras como balizas que eram afastados quando aparecia um carro(na altura havia poucos)

vitorchuvashortstories disse...

Olá, Jorge!

Mais uma viagem ao passado, em que me junto como passageiro.Ter uma bola dessas, de "catchu"como por se lá se dizia, era mesmo um privilégio, para além de se poder jogar melhor futebol.
Como uma simples bola e um espaço para nela andar aos pontapés, conseguis fazer tanta gente feliz por tão pouco ... Hoje em dia, para conseguir o mesmo, é preciso uma "pequena fortuna"...

Gostei muito de ler; vi-me lá a jogar ...

Um abraço amigo; bom fim de semana.
Vitor

BlueShell disse...

O "dono da Bola"? Que prestígio!

Sei o que é ter assim recordações riquísimas e inesquecíveis que sobreviveram ao passar do Tempo...
BShell

Guma Kimbanda disse...

Boa tarde amigo Jorge,

Vim à sua companhia para lhe deixar meu kandando e o desejo um óptimo feriado.

Grato pela sua presença mesmo quando o tempo não me tem permitido vir abrir estas janelas como gosto, de para em par.