Porto de Sines

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segunda-feira, 12 de março de 2012

O PASTOR

Portugal sofre com a desertificação. As aldeias estão desertas e abandonadas, os rebanhos estão a acabar, o gado já não vai para as serras. É necessário reabilitar-se o mundo rural.

Retomo uma breve viagem à minha adolescência e à vida quotidiana rural do pastor no século passado em Trás-os-Montes.

O gado era guardado por um pastor de Sol a Sol. Botava as ovelhas ao monte em terrenos onde crescia erva apetitosa para que dezenas de ovelhas lhe deitassem o dente. De manhã até à noite sempre ao pé delas e elas sempre atrás dele. Andavam-se assim quilómetros e quilómetros montes abaixo, montes acima. É serviço que nunca está feito, nem de Verão nem de Inverno. Não há pastores gordos. Os pastores gostam da liberdade.

O pastor conhecia todas as suas ovelhas pelos nomes: Zézita, Rouxinol, etc. E fala com elas: "Vais com pressa! Vais! Vais!... E lesto atirava-lhe uma pedrada certeira que caia mesmo à frente da ovelha obrigando-a a arrepiar caminho.


Muitas vezes não sabia muito bem quais os proprietários dos terrenos baldios, mas lá se arranjava.

 

Com bom tempo, o gado dormia ao relento, num bardo de cancelas. Com esta última arrumação do gado, o pastor ficava mais descansado.


Durante a noite dormia ao lado numa simples cabana.


Os cães com coleiras de lata com pregos que lhes protegiam o cachaço dos ataques frequentes dos lobos, completavam a guarda.


O pastor não dispensava a sua flauta, o instrumento mais antigo do mundo,
feita de cana brava ou de sabugueiro com um furo de sopro e seis perfurações, feitas a fogo, para os dedos.


Os pastores consciencializaram-se de que os lobos são medrosos e enfrentam a situação. O lobo uiva para demarcar o território, mas é cobarde. Ataca os animais mas não os homens. Há apenas que ter capacidade para lhes fazer frente.


Bastava o pastor gritar: «Agarra que é lobo desgraçado e malvado!». Os cães começavam a ladrar e os lobos fugiam. As ovelhas não estavam sozinhas. O pastor assobiava e as ovelhas vinham atrás dele. O céu era testemunha.


O bardo era mudado com frequência, para o gado estrumar bem toda a terra.


O gado era dado de meias pelo propritário ao pastor. Metade da produção para cada um.


O pastor  desdobrava-se e dava conta de dezenas de ovelhas que ordenhava à mão, beneficiando do leite dia sim, dia não.


Um cântaro de leite dava para fazer três queijos e ainda requeijões, aproveitando-se também a parte aquosa, o soro.


Os queijos eram feitos numa froncela, para o máximo de dois.


O leite depois de coalhado era espremido nos aros perfurados, escorrendo o soro da froncela para uma bacia. Os queijos eram postos a secar nos aros, em tábuas penduradas no tecto. Depois de secos, tiravam-se os aros e envolviam-se com uma gaze para não esboroarem. Mais tarde eram corados, mergulhando-os numa vasilha com colorau e azeite.


Os requeijões eram feitos do soro numa caldeira pendurada num gancho na lareira, sobre lenha a arder que não deitasse fumo, até quase ferver. Iam-se apurando com uma escumadeira para as requeijeiras.


Havia também a lã das ovelhas e dos carneiros, da tosquia feita pelos tosquiadores, normalmente em Maio, caso contrário no Verão não aguentariam o calor.

A lã era cardada em velos, de que eram feitos os célebres cobertores de papa.

Os borregos  eram também vendidos de meias.

[cajoco]


Fotos: Google






8 comentários:

Luís Coelho disse...

Belo relato e grande verdade.
As aldeias do norte estão progressivamente a despovoar-se e já não há rebanhos.
Só conheci esta parte depois de casar. A minha mulher é natural da Beira Alta. Sernancelhe. Foram todos criados a tratar do rebanho e aprenderam o que a vida tem de duro.
Hoje a maioria das quintas estão abandonadas e já ninguém aguentaria a vida dura que eles tiveram.

Vitor Chuva disse...

Olá, Jorge!

Nasci no campo, e este modo de vida não me é estranho. Que aqui aparece muito contado com detalhe, conhecimento e gosto, levando-nos de volta a um mundo duro, mas onde não faltava encanto, que tende a desaparecer - infelizmente.
Muito por "burrice" de quem nos tem governado, e duma certa mentalidade novo-rica que achava que tínhamos chegado ao topo do mundo em termos de desenvolvimento; e com desprezo por tudo o que é actividade ligada às tarefas humildes do mar e ao campo.E deu no que deu. Pode ser que ainda estejamos a tempo de voltar atrás, tentar recuperar parte do que se perdeu - e que tanta falta nos faz.

Belo texto, Jorge!

Abraço amigo.
Vitor

Graça Pereira disse...

Adorei esta crónica porque, não sei porquê, sempre me encantou a profissão de pastor. Encontro nela algo de sonhador e romântico embora saiba que é uma vida difícil. Mas há alguma coisa que pague a liberdade??
O rei David foi pastor e penso que, alguns dos seus belos salmos, tiveram raízes nos ventos livres que lhe corriam pela alma.
Beijo amigo e uma boa semana.
Graça

Ana Tapadas disse...

Testemunho de um mundo que recordo nos campos alentejanos da minha infância...
Excelente relato.

Beijo e boa semana.

acácia rubra disse...

Há dias, quando ia para a escola, perto de uma aldeia que atravesso, um rebanho, enorme novelo de lã mesclado, ia estrada acima. Parei, abri o vidro para ter o cheiro gostoso daquele momento e uma cabeça castanha entrou-me carro adentro. O pastor pediu desculpa, os cães (os últimos do cortejo) abanavam as caudas e eu fiquei com aquela sensação boa de regresso à terra.

Beijo

oteador disse...

me recuerda a la niñez entre escenarios parecidos. saludos

MIESFE - 64 disse...

preciso comentario de la situación que pasamos ,buenos retratos
Un abrazo

Fernanda disse...

Maravilhosa narrativa que me fez lembrar os tempos idos da casa dos meus avós paternos.

Obrigada
Beijo