Porto de Sines

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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Dr. Belarmino [1]

Belarmino concluiu, em meados dos anos 30 , o curso de Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Contava que o Pai lhe deu «cinco coroas» como recompensa, que acabou por dar ao irmão Américo, muito mais novo, face à «birra» que fez, protestando por igual quantia. Luís António, lavrador abastado,  era uma pessoa muito autoritária, do tipo «quero… posso… e… mando».

Quando Belarmino acabou o curso, teve este desabafo para a Lurdes: «Quero que o “Meu” Belarmino fique cá! Já estou velho, nem pensar em ele sair daqui! Preciso de alguém que tome conta das terras!»

O "Tio Luís", como era conhecido, tinha naquela altura um macho muito manso. Quando o dono o montava, parecia escolher o melhor caminho para não o incomodar. Era nele que se deslocava para as suas propriedades.

Assim, já com o diploma de médico, o Dr. Belarmino começou a sua carreira em Vilarinho da Castanheira, tomando conta das suas terras e das do pai.

Vilarinho da Castanheira insere-se na chamada Terra Fria, bravia e de penedia, com Inverno muito rigoroso e prolongado, com geadas fortíssimas de Setembro a Maio. Também neva com muita intensidade. O Verão é muito curto e quente. As temperaturas oscilam, durante o Inverno, entre temperaturas negativas e positivas que, geralmente, não ultrapassam os 10 graus. Já no Verão podem ultrapassar os 30. «Nove meses de Inverno e três de inferno».

O Dr. Belarmino tinha forte ligação à região devido às suas raízes familiares.
Era um homem de hábitos simples. Em contraponto D. Lurdes, a esposa, detestava a terra onde nasceu.
A vida do médico na zona rural não era fácil. Olhou para o futuro (o futuro que não era seu, nem é de ninguém!), começou a tratar das propriedades: terras, olivais e vinhas – a ser lavrador sem deixar de ser médico.

Uma das primeiras medidas do Dr. Belarmino, foi a compra dum cavalo, que foi baptizado com o nome de «Galiza», atentas as afinidades com a vizinha região galega.
A loja do cavalo ficava no outro lado da rua, mesmo à mão de semear [conforme eu testemunho posando para a posteridade]. O Galiza pressentia e reconhecia os passos do dono na rua, relinchando e apelando por um feixe de feno  na manjedoura ou uma vianda com farelos, com que o dono o regalava com inusitado prazer. 

Era o meio de transporte que utilizava para percorrer os caminhos tortuosos do interior rural; não só para se deslocar às propriedades, mas também nas visitas aos doentes e a parturientes residentes nos casais e quintas fora da aldeia e nas aldeias circunvizinhas, a qualquer hora do do dia ou da noite arrostando o calor, o frio, a neve ou a chuva, acorria ao apelo dos familiares dos "seus" doentes que lhe batiam à porta . Era o único médico naquela região.

Por vezes, o Dr. Belarmino ia armado e acompanhado por alguém, também armado, por causa das esperas dos salteadores e eventualmente dos lobos, que lhe saíam ao caminho seguindo-os até perto das povoações.

Foi o primeiro e o último médico residente de Vilarinho, terra que o viu nascer. Foi o médico/fundador da Casa do Povo, onde começou a diagnosticar doenças, a prescrever tratamentos, a devolver saúde, a salvar vidas. Naquela altura ser médico era apenas ser médico, pràticamente havia poucas especialidades.

As pessoas eram na sua maioria gente muito pobre que vivia paredes-meias com os animais domésticos e os currais de gado. Estes animais andavam à solta e estercavam nas ruas ponteadas com bostas de bois. Junto às casas, formavam-se rimas de estrume, a curtir ao sol, depois acarretado, em engarelas nas bestas ou nos carros de bois, vulgo «charriantes», para adubar as terras.

As doenças infecciosas – tuberculose e febre tifóide – e pneumonia, bem como os carbúnculos eram uma constante.
Guardo memória dum  paciente que foi à consulta calhando entrar pela porta da cozinha.  Respeitosamente apertou a mão aos elementos da família que encontrou, incluindo uma “mãozada” ao Dr. Belarmino.
Sucedeu que o homem tinha sarna. Contagiou o médico e familiares. Não faltou sarna para coçar-nos. Na altura a sarna era tratada com água de farelos salgada.

A maioria dos pacientes, não tinha dinheiro, nem para consulta nem para os remédios. Pagavam mais tarde, ou em jeiras ou simplesmente não pagavam. Para valer aos mais necessitados recorria, quando podia, a medicamentos de amostras clínicas.

O Dr. Belarmino era muito circunspecto, poupado e minucioso, muito cioso das suas economias.Tinha gostos moderados e gastos sem expressão.

Desempenhava ainda funções de Delegado de Saúde, fazendo inclusive autópsias que, por falta de instalações adequadas, eram realizadas no cemitério. Lembro-me de serem autopsiados três irmãos de Coleja, afogados no rio Douro, pelo facto de o barco em que seguiam se ter virado.

Recordo ainda o apoio que dei no registo das pessoas a vacinar, nas campanhas de erradicação da varíola. Já naquele tempo havia muitas mães solteiras, dado que os progenitores que indicavam eram casados e «respeitáveis» chefes de família.

Anteriormente nascia-se de qualquer maneira e em qualquer sítio, sem assistência médica. Havia na aldeia, entre outras, duas mulheres que se prestavam a fazer «esse serviço».
As benzedeiras com as suas tisanas e mesinhas, e os curandeiros, principalmente os «endireitas» também desempenhavam o seu papel suprindo, sabe Deus como, a falta de um médico que até então nunca houve.

A insalubridade dificuldades e as mentalidades, por vezes rudes daquela gente, foram ultrapassadas pelo novo médico, que arregaçava as mangas, lavava mãos e braços, pedia uma bacia com água quente e toalhas, assegurando as condições de higiene necessárias para dar seguimento ao parto. Em casos mais difíceis, raramente, recorria ao «fórceps» [instrumento em forma de tenaz para apressar a extracção da criança].
Com maior ou menor dificuldade era bem sucedido, era «especialista». Colegas chegaram a pedir-lhe opinião e ajuda, a que correspondia com profissional satisfação.

Ser médico é lidar com a dor, o sofrimento e a morte e ao mesmo tempo procurar viver como um cidadão comum.


20 comentários:

acácia rubra disse...

Jorge

Enquanto o lia, fui lembrando "Retalhos da Vida de um Médico" de Namora.

Outrora era assim, as pessoas eram tratadas como pessoas, entendidas como tal. Hoje a especialização trouxe um conhecimento tão espartilhado que até chega a reverter numa relação médico/doente desumana.

Aqui há tempos tive de ir ao hospital a uma consulta. A médica, que tinha passado pela sala de espera acelerada, mais o estava, quando entrei.

Matraqueava o computador sem me olhar, pondo cruzes, asteriscos e o que lá ela sabia, sem me olhar. Eu é que nem compreendia bem porque estava ali. Estava doente, precisava de ajuda e à minha frente tinha duas máquinas, que emperraram quando disse à humana ter há muito fibromialgia. Olhou então para mim, nervosamente mexeu no rato, e acabou por me dizer que isso não constava da lista. Eu não tinha nem tenho, para aquelas máquinas, doença alguma, porque não foram programadas, ambas, para tal.

Tenho saudades de ser atendida com a ficha de papel, onde se escrevia enquanto íamos trocando sintomas e segurança. Talvez que esse tempo esteja demasiado longe, mas que todo esse quase ritual era importante, disso não tenho dúvidas.

Já me alonguei muito. Mas palavra puxa palavra, não é?

Boa semana.

Beijo

Janita disse...

Querido amigo Jorge.
Que prazer enorme me proporcionou a leitura deste relato verdadeiro! Contado com o sentimento e a riqueza de pormenores tão própria do Jorge, de que eu já tinha tantas saudades.
Suponho que o Dr. Belarmino seria o pai do Jorge, ou o avô?
Antes havia, não só vocação, mas uma grande abnegação na profissão de médico. Era quase como um sacerdócio. Tão diferente de hoje em dia...
Uma relíquia Jorge, aquela sua foto em cima do "Galiza"! Que menino amoroso, devia ter para aí uns três anitos, não?
Adoro este recordar d'outros tempos e imagino como lhe devem ser gratas estas recordações.
Obrigada meu amigo, por partilhar connosco estas recordações tão queridas.
Ainda cá vou voltar e já sabe Jorge, eu sou a tal mulher dos três comentários!
Estou a brincar...e a recordar,também.
Um abraço muito, muito carinhoso.
Janita

Luís Coelho disse...

Uma belíssima história dessas que conhecemos na primeira pessoa.

Médicos a tempo inteiro e com vocação para tal, doando-se em tempo e amor aos doentes sem rejeitar as suas condições de pobreza e miséria.

Este texto remete-nos a um passado recente que fomos vencendo.
Hoje são poucos os que acreditam nestas vidas de abnegação e entrega a ideais mais altos e mais nobres.

Parabéns pelo texto.

Laura disse...

Apreciei este desfiar de tempos passados e, sobretudo, por me parecer ter sido um interveniente activo.

Vou passar por aqui mais vezes.

Beijinho

manuel marques disse...

Bonito texto.

Abraço.

Janita disse...

Meu querido Amigo.
Cá estou eu, de novo, pela terceira vez!
Na segunda, reli mas não comentei.
Nunca é demais dizer-lhe da satisfação que sinto ao ler estes seus belos textos.
Reparei que tem a indicação que este é o primeiro. Portanto, deduzo que outros se lhe seguirão.
Fico muito contente, Jorge. Por si e por mim.
Aguardo, expectante.
Beijinho meu amigo.
Janita

FMF disse...

Bonita narrativa. Apesar dos tempos terem mudado, ainda há muito de sacerdócio na profissão de médico.

Um abraço,

Kimbanda disse...

Estimado amigo Jorge.

Seria cómodo ter abdicado da medicina e ter enveredado por cuidar das terras, tão somente.
Mas o que se constata é que a formação do Dr. Bernardino não tinha como objectivo principal uma profissão como modo de ganhar a vida, mas sim salvar vidas ou de algum modo as tornar menos penosas. O conseguir abraçar a gestão das terras e cuidar da saúde e bem estar das gentes lhe terá enriquecido a alma e deixou legado.
Esta estória que nos conta e porque por si foi vivida, quando da primeira vez que vim e não esperando que fosse tão completa, me fez aguardar pela oportunidade de voltar com tempo para a ler com atenção um texto que gostei.
Gostei da narrativa e fiquei com a ideia de estar a ler um capítulo de um livro que ao virar da página ainda não tinha continuação.
Assim aguardo com expectativa e me despeço com um kandando amigo.

Lis disse...

Oi Jorge
Um texto biográfico do doutor Belarmino.. Li num relance e gostei abessa.
Uma missão honrada de salvar vidas .Os médicos deveriam todos zelar pela graça que possuem nas maos - o dom de cuidar.
Haverá algo mais digno e prazeroso?
Adorei Jorge.

abraço

**♥✿-franciete-✿♥** disse...

Amigo estou passando para desejar um bom fim de semana com um beijinho de luz.

**♥✿-franciete-✿♥** disse...

Jorge ainda volto pois não podia deixar de ler embora nesta altura qualquer leitura ainda se torna penosa para mim, mas este testemunho me faz lembrar o Dr.João Semana.
Abraço amigo.

Graça Pereira disse...

Querido Amigo
Um texto cuidado, bem escrito e real. Consegui perfeitamante visualizar toda a narração...como se fosse um filme e liguei o Dr Belarmino ao famoso João Semana!!
Nesse tempo ser médico, era um sacerdócio, numa entrega sem horas, nem descanso... A cura do doente vinha primeiro que qualquer pagamento que, como contas, ás vezes, nem vinha!!
Hoje, pergunta-se: quanto me pagam por cada hora extraordinária?? Depois, tratam do doente quando já não há tempo...para o salvar!
Voltarei para continuar a ler o Dr Belarmino(2).
Beijo amigo
Graça

Regina Rozenbaum disse...

Ah meu amigo...esses doutores são tão raros de se encontrar quanto dinossauros. É por essas e outras que fico perguntado da nomeação ainda dada: "profissionais da saúde"(?). Rubem Alves tem uma crônica belíssima sobre o médico de antigamente.
Beijuuss n.a. e uma páscoa de paz!

nacasadorau disse...

Ser médico é tudo isso e muito mais, amigo Jorge, mas há quantos? e estão onde agora?

O Belarmino foi uma das raras excepções, nós sabemos disso. Mesmo naquele tempo ser médico exigia sair da terra e ficar numa grande cidade.

Abençoado Dr. Belarmino que abarcou todo o seu trabalho mais o da lavoura e ainda fundou a Casa do Povo.

nacasadorau disse...

Sabe que aqui onde vivo, V.N de Cerveira, havia há poucos anos, estiu aqui há 20 e ele ainda foi médico da minha família, o Dr. Afonso, um médico um pouco semelhante ao que descreve.
Faleceu muito novo, cirrose; bebia para esquecer, diz-se por aí.
Desgostos com os filhos, um rapariga em especial, mas esse excelente profissional, estava sempre presente dia ou noite, nos Bombeiros ou até na taverna, todos sabiam onde encontrá-lo e só pagava quem podia, mas foi-se embora.

Os que temos aqui agora, são 69% galegos, e não chegam para a população. Tudo isto para além de serem arrogantes, pedantes, e acima de tudo maus profissionais.

Tinha aqui assunto para ficar a escrever horas...

Páscoa feliz
beijinho



PS. Só consegui que o comentário fosse aceite, dividindo-o.

joaquimdocarmo disse...

Longe vão os tempos, querido amigo Jorje, em que havia "João Semana" um pouco por todas as regiões pobres da nossa terra! História muito bem contada, parabéns!
Abraço com votos de uma Santa e Feliz Páscoa

Laura disse...

Aiiii Jorge, Jorgeeeeeeeeeeeee, levei mais de 8 minutos para poder comentar, já vim cá várias vezes, mas, demora tanto que me ponho a andar..ou é o blogue carregado demais ou o meu pc que está tolo, enfim..

Beijinhos da laura

d'Alma disse...

E tanta falta faz essa humildade naqueles que deviam sentir mais Amor ao próximo, a quem dos serviços de quem pode ajudar, necessitam!... Infelizmente, da nobreza do Curso, parece ter restado uma vaidade que pouco dignifica a classe!...

Belíssima história, provocando-me a memória que me levou para o "Uma abelha na chuva" de Carlos de Oliveira!... ( Sem que Algum médico fosse tema central da história). A forma, a atmosfera que envolve a escrita!...
Muito bom!



Boa semana




Abraço

Graça Pereira disse...

Olá Jorge
Obrigada pela tua visita ao blog de homenagem (tentei) ao nosso João Maria.
Espero que a tua Páscoa tenha sido boa, com saúde e em família.
Quando chega o Belarmino 2? Estou desejosa de continuar a ler.
Beijo amigo.
Graça

Jorge disse...

Amigos/as e Companheiros/as!
Os retalhos da vida do Dr. Belarmino [um médico do antigamente], meu pai, que todos os dias dava a volta pelos "seus doentes" na aldeia, fazem parte inalienável das mais gratas memórias da minha vida.
Obrigado pela atenção dispensada e pela benevolência das vossas interpretações, que representam um incentivo conducente à continuação desta narrativa, sem outra pretensão a não ser a satisfação que isso me dá.
Um abraço e um bom dia para todos/as.
Jorge