Porto de Sines

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

A Instrução Primária de "outrora"

Continuo a contar histórias da minha infância em Vilarinho da Castanheira. Recordo com nostalgia o tempo em que fiz a Instrução Primária.
As matrículas eram no início de Outubro. As aulas começavam após o "5 de Outubro", data comemorativa da implantação da República em Portugal. 
Rapazes e raparigas tinham aulas em escolas separadas e distantes.
A professora "de sempre" das raparigas foi a D. Inês, que fazia do professorado um verdadeiro  sacerdócio; tanto que quando se reformou, a pedido do bispo de Bragança , aceitou ser fundaddora de um convento de monjas [creio que em Sendim], onde ficou até ao fim dos seus dias.
Íamos todos a pé de sacola às costas para a escola. Alguns descalços, outros mais remediados, calçados com socos ou botas cardadas, manufacturados por medida pelos soqueiros e sapateiros da terra. Tirar as medidas para o calçado era de per si um ritual motivo de grande satisfação e expectativa.
O soqueiro Jingeira tinha um filho – o Clotário – com sete dedos no pé direito, um fenómeno local e não só.

A Escola ficava numa posição sobranceira ao adro da Igreja. Era muito antiga e exígua, com uma sala para as quatro classes [cerca de 50 alunos] dirigidas por um só professor.
Uma lareira escavada na parede, resguardada por uma porta em chapa de ferro, com lenha a arder no interior,  aquecia a sala amenizando o frio cortante no Inverno.  Chovia lá dentro.  Alguidares e baldes eram o recurso para aparar a água da chuva. 
À esquerda da lareira ficava secretária do[a] professor[a]. Do outro lado pontuavam o famigerado quadro preto, giz e apagador, complementados nas carteiras dos alunos pela lousa e o lápis de pedra, assim como o caderno para  cópias e ditados.
Os alunos das 1ª e 2ª classes acomodavam-se em  pesadas mesas  com banco corrido para 4. Os das 3ª e 4ª classes em carteiras de 2 lugares. Cada aluno tinha na carteira à sua frente um tinteiro  para molhar a pena na  escrita de cópias e ditados.
Em frente ao alto na parede permaneciam: os retratos de Salazar e Carmona. com um Crucifixo de permeio.
O Estado Novo foi o regime autoritário que mais durou em Portugal. Salazar, seu arquitecto e protagonista, marcou o País de forma total. Nós, os garotos, parodiávamos com o nome dizendo que Sal (dá) azar.
Sanitários não existiam. Um aluno quando estava atrapalhado pedia do lugar ao professor: "sô pessô dá cença de ir lá fora?!"  O professor perguntava: "fazer o quê?!" O aluno respondia: "fazer o que é preciso". Então o professor autorizava e "o que era preciso" era feito de imediato – alguns tinham as calças rachadas no "sim senhor" para facilitar a tarefa – na loja por baixo da escola, no quintal  vizinho ou  no "canêlho" mais próximo.
Era o tempo dos livros únicos. Livros escolares celebravam Deus, Pátria e Família, Salazar e a Mocidade Portuguesa nas suas capas e conteúdos. A orientação do ensino era pela moral cristã. A hierarquia começava em casa com o pai como "chefe de família". Nos manuais incluiam-se "frases obrigatórias" retiradas dos discursos de Salazar.
Aos Sábados, saíamos da escola em formação marchando e entoando cânticos patrióticos até ao adro da igreja, onde nos divertíamos com jogos tradicionais: o tiro liro, o eixo,  a bola, etc.
Fora das aulas a brincadeira estendia-se aos jogos: do pino, da burra, da bilharda e à... pedrada que por vezes terminava com uma cabeça rachada e cada um a fugir para seu lado.

Foram três os professores: na primeira e terceira classes, o professor Miranda, na segunda, a professora Cândida Ochoa e na quarta, a professora Albertina. Todos transmitiram bons ensinamentos e deixaram-me boas recordações. Muitos dos conhecimentos que adquiri na instrução primária ainda hoje perduram.

O professor Miranda era o mais rigoroso. Era muito sério, não era para brincadeiras.
Eram tempos de palmatória, alguns alunos foram vítimas dos seus castigos corporais. Recordo o castigo aplicado ao João da Angélica, meu vizinho e amigo – uma série de palmatoadas no rabo, que ficou roxo e negro.
Quando cheguei a casa, contei logo à minha mãe que, na primeira oportunidade, lhe chamou a atenção: "Professor isso não se faz! Não pode castigar dessa maneira!"
Resposta do professor: "Reconheço que exagerei, mas enervei-me!"
O pobre do João é que "ficou com elas", "ninguém lhas tirou".
A professora Ochoa era mais ponderada, raramente castigava os alunos. Usava outros métodos. A tabuada, essa matemática para definir uma operação de multiplicação  e tirar as provas dos nove e real, estava na ponta da língua.
Dizia, por exemplo, que tinha em casa um "bicho-de-sete-cabeças", destinado ao melhor aluno da escola naquele ano. Consegui sê-lo, só que nunca consegui ver tal bicho.
A professora Albertina dava-nos mais liberdade de estudar. Um mês antes do exame da quarta classe, logo ao nascer do sol, íamos buscar a chave da escola, que ela deixava debaixo da porta de casa, para recapitularmos os rios, as serras e os caminhos de ferro nos mapas de Portugal e das Colónias.
Incentivava as "sabatinas" entre os alunos da 4ª classe. Fazíamos perguntas uns aos outros sobre a matéria dada para ver quem se saía melhor.
Para  o exame da 4ªclasse, deslocàmo-nos [de burro ou de cavalo]  14 Km até Carrazeda de Ansiães onde prestamos provas. Felizmente ficamos todos [dez alunos] aprovados, tendo no regresso e à chegada à aldeia manifestado verdadeira efusão de alegria e contentamento.
Numa altura em que o país oferecia aos alunos pouco mais que a instrução primária, apenas os filhos de meia dúzia de pessoas com algumas posses tinham possibilidade de continuar a estudar. 
Alguns, como recurso, emigraram mais tarde para o Brasil, EUA, Canadá, Venezuela ou para outros países, com as suas famílias procurar melhores condições de vida.
Os restantes  aprendiam uma "arte" [sapateiro, pedreiro, carpinteiro, alfaiate, etc.] ou mantinham-se na terra cultivando os campos.

14 comentários:

Graça Pereira disse...

Gostei deste teu relembrar... O meu Pai costumava dizer que " uma quarta classe bem feita do "antigamente" valia mais que uma Universidade"...
Talvez fosse um pouco de exagero mas, a verdade, é que agora constato muita vez (até em concursos de cultura geral) que os licenciados têm muito poucos conhecimentos dessa cultura e até mesmo da muito básica... Evolução dos tempos???
Beijo e boa semana
Graça

manuel marques disse...

Bom texto que me fez recordar tempos idos.

Abraço.

relogio.de.corda disse...

Gostei muito deste texto e deste recordar da escola de outros tempos.
Nada de nada tem a ver com a escola dos dias de hoje, é um facto mais do que consumado. Uma das marcas da escola de que fala, é o respeito pela pessoa mais velha e que hoje deixou de existir por culpa, sabe-se lá de quem...

acácia rubra disse...

Era assim. Também ouvi muitas vezes a frase que a Graça refere.

Ficava-se a saber muito que ainda hoje recordamos. Pelo menos não necessitamos de calculadora para fazer uma conta de multiplicar.

O meu professor da segunda à quarta classe chamava-se Abílio, o meu professor Abílio, que um dia, falando com a minha Mãe, disse de mim " Ela não é burra de todo." Vindo dele foi um elogio e assim o tenho como tal.

Beijo

Luís Coelho disse...

Boa noite Jorge
Memória fresca dos acontecimentos na tua escola. Descrição bem humorada com termos próprios dessa região que lhe conferem muita graça.
O outro que ficou com o rabo negro foi um exagero, mas olha que se me tivesse acontecido a mim teria de ficar calado porque o meu pai dava-me ainda mais.
Deduziam logo que o professor tinha sempre razão.
No final ainda diziam:
O mal foi teres apanhado. Ficaste com elas e já ninguém as tira.
Um abraço.

Janita disse...

Belos tempos, amigo Jorge, belos tempos! Vistos e recordados, agora à distância...
Fiquei contente por verificar, nestas suas memórias de infância, um certo sentido de humor que, ultimamente, andava um pouco ausente!
Eu tive a sorte de ter a mesma professora desde a 1ª à 4ª classe, ( como se dizia então) era uma senhora muito bondosa e com um grande sentido pedagógico. Nunca usou a odiosa palmatória. Mesmo já depois de adulta, sempre que eu ia a Serpa, nunca vinha embora sem a visitar.
Sabe Jorge-desde que li a sua postagem anterior, que ando a magicar em publicar sobre as minhas memórias de menina. Até já andei a remexer na minha caixa de fotos antigas. Um dia destes sai...
Beijinhos.
Janita

susi disse...

Olá amigo Jorge, obrigada pelos seus comentários e suas visitas ,deixa-me feliz!
Suas narrativas nos levam a viajar no tempo,tens o dom das palavras. Palavras que constroem cenas do passado. Fez-me lembrar das histórias que minha mãe contava.
Abraços do outro lado do oceano.

Vitor Chuva disse...

Olá, Jorge!

Magnífica descrição do que era um escola primária há umas boas décadas atrás, com uma listagem de detalhes e pormenores que daria para fazer uma reconstituição das mesmas.
É como se tivesse revisitado a minha própria escola, tão próxima da mesma é o que aqui encontro descrito.
Acrescentar-lhe-ia, apenas, uma "cana da India" (bambu), de duros nós que muitas vezes deixavam marca nas costas ou rabo daqueles com menos vocação para o estudo, sobretudo para a matemática.
A professora tinha tanto de competente e dedicada como de mazinha, e aqueles que conseguiam passar é porque sabiam, mesmo; muitíssimo mais do aqueles que hoje de lá saem, apesar das condições miseráveis de então, quando comparadas com as de hoje.
Saudades desse tempo,sim, existem, até porque se era mais novo, e também pela belíssima camaradagem que então se vivia.
Com este lindo texto, voltei à primária, e gostei muito da visita.

Um abraço amigo.
Vitor

Jorge disse...

Graça Amiga,
Naquele tempo a quarta classe "tinha classe"...
O meu Pai acompanhava-me nos trabalhos de casa.
O ensino "superior" tem-se massificado e degradado. Sinais do tempo, como bem dizes.

Manuel Marques,
Grato pela sua amável opinião.

relógio.de.corda
Fico reconhecido pelo seu amável comentário, que veio em "boa hora".
Naquele tempo havia muito respeitinho pelos professores, nem podia ser de outra maneira...

acácia rubra,
São conhecimentos e ensinamentos que perduraram e que serviram a muitos de suporte para trilhar o seu próprio caminho.
Um "elogio" dum professor é sempre agradável...

UM ABRAÇO PARA TODOS.
Jorge

Jorge disse...

Amigo Luis,
É um prazer ler os teus oportunos comentários.
Pois é, se eu me queixasse ao meu pai acontecia-me o mesmo. Dir-me-ia: perderam-se as que cairam no chão.

Atenta Amiga Janita,
As memórias que tenho da minha infância são como que uma época dourada da minha vida.
Cá fico a aguardar com expectativa as suas memórias. As minhas não têm fim...

Olá susi!
Obrigado pelos teus amáveis elogios. Bondade tua. É com prazer que visito o teu cantinho.

Viva Vitor,
Essa da "cana da Índia" não lembrava ao diabo. Éra ser mesmo màzinha...
O amigo tem o dom da escrita e as suas opiniões estimulam quem se esforça por fazer sempre o melhor possivel. OBRIGADO!

UM BOM FIM-DE-SEMANA PARA TODO[A]S.

Hana disse...

Oi amigo meu, todo este texto dari am lindo livro, nossa quem não gostaria de fazer esta viagem contigo, de volta a infância, adorei!! Eu quase de volta a infância, vou me vestir de bruxinha e celebrar o halloween com as minhas crianças da escola, rss, acompanha-las a bater de casa em casa em casa perguntando, – doce ou travessura, que mico adorável, como a vida é bela,no Brasil não celebramos dia das bruxas, rsssss, eu como bruxinha deixo uma travessura, te desafio a viver lindamente feliz, com esta paz no coração, e que a harmonia esteja sempre contigo, junto com amor infinito em seu coração!! é isso já fiz minha travessura do dia fui, kkkkkkkkk
bruxinha Hana

Jorge disse...

HANA,
Sempre generosa e gentil. Travessura bem-vinda.
Um fim-de-semana iluminado e feliz.
J

FlorAlpina disse...

Olá Jorge,
Qeu bom foi viajar consigo á sua infância, é bom recoradar!
Obrigado pela partilha!

Abraço dos Alpes

Jorge disse...

Flor Alpina,
Esta partilha de memórias através dos Alpes é muito importante e só me dá satisfação.
Abraço amigo,
J