Numa modesta casa térrea só com uma divisão, junto ao largo da feira, habitava o feitor António Lereno, com a mulher e os dois filhos, Gentil e o Artur. Não havia privacidade e intimidade.
A lareira ficava a um canto desnivelado. Ao lado, da janela nas traseiras, desfrutava-se uma vista maravilhosa sobre o vale e a encosta onde corria o ribeiro dos moinhos de água. As necessidades básicas insatisfeitas daquela família, certamente não davam azo ao desfrute daquela magnífica paisagem rural.
No ângulo da lareira e em cima do sobrado, todos comiam a sua refeição principal, servida num prato enorme. Quem mais depressa se despachasse melhor alimentado ficava.
Um dia, depois duma dessas refeições, o bom do Sr. António desabafou com o Dr. Belarmino, quando este o interpelou: «Então, homem, o que é se passa!? Está cá com uma cara! «Deixe-me cá o estapor da minha mulher faz-me suar para a acompanhar».
No princípio do Inverno, em Dezembro, o feitor acompanhava o pessoal na apanha da azeitona.
Normalmente eram assalariados quatro homens. As mulheres eram recrutadas às ranchadas e pagas com cereais, vinho azeite, etc.
Eu gostava de dormir na Ribeira ao pé dos homens que dormiam no chão em mantas por cima da palha e as mulheres, igualmente acomodadas, noutro lado.
O feitor, de inteira confiança do Dr. Belarmino, – o circunspecto, honesto e leal António Lereno – de madrugada, quando os galos anunciavam o nascer do dia, tocava o búzio para o pessoal – homens e mulheres – se levantarem, comerem uma bucha e seguirem para os olivais: Saraiva, Sulfata, Pescoça, Sardoal e Vale da Sancha.
Ali, a partir do nascer do Sol, os varejadores varejavam a azeitona para cima dos toldes, estendidos à volta dos pés das oliveiras, onde as mulheres a apanhavam de seguida, enchendo os sacos que os homens carregavam nas bestas que de seguida os transportavam para o lagar.
O Dr. Belarmino e a D. Lurdes, por vezes, acompanhavam na sua casa da Ribeira a apanha da azeitona. Acompanhavam-nos a Sra. Bertinha e a Gentil. A Sra. Bertinha fazia a comida e tratava da casa, a Gentil ia para a apanha da azeitona com as mulheres. As duas dormiam num quarto da casa.
No último dia da apanha da azeitona, cerca do meio-dia, tinham lugar as filhós – o prémio de ter acabado o serviço. Era uma pequena festa de encerramento da apanha da azeitona. Patrões, feitor, homens e mulheres confraternizavam comendo as filhós – fritalhada de bôlas de farinha azeite e ovos – pão, queijo azeitonas, chouriço, regados com uma boa pinga de vinho tinto.
[cajoco]
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