Porto de Sines

Porto de Sines

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Vilarinho da Castanheira - A Bola com Câmara-de-Ar



A princípio, depois das aulas e principalmente nas férias escolares, jogávamos futebol com bolas de borracha [não duravam muito, furavam-se e rebentavam fàcilmente, atendendo aos «bons tratos» que lhes dáva-mos].
As balizas eram definidas por duas pedras e a linha de golo por um risco  entre elas.
O recinto de jogos era o largo em frente da capela da Senhora da Fé até ao cruzeiro sobranceiro à estrada.

Um dia, nas férias da Páscoa , o meu Padrinho surpreendeu-me, abrindo a porta da cortinha da casa, atirando uma bola na minha direcção, dizendo: «Toma lá para dares cabo das botas ao teu pai!».  Foi a prenda da Páscoa que ele me trouxe do Porto. Não queria acreditar no que via. Era uma bola com câmara de ar.

Foi a primeira bola, daquele género, que apareceu em Vilarinho da Castanheira, fez sucesso. Era de gomos em couro, com a famosa câmara de ar no interior, enchida antes dos jogos com uma bomba de bicicleta. Como dono da bola era acompanhado com entusiasmo pela rapaziada da aldeia.

Organizamos uma equipa de futebol da terra , que designamos por VILARINHO. Cada um equipava-se à sua maneira, preferencialmente de camisola e calção branco [o equipamento considerado mais acessível a todos].

O campo de treinos e de jogos passou para um local mais amplo,  perto da encruzilhada à saida da povoação. Era inclinado, situado num terreno baldio. As balizas passaram a ser constituidas por dois postes encimados pela trave. Melhoramentos notáveis, que eram motivo do nosso orgulho e satisfação.

A bola mudava tudo. Permitia a troca, as brincadeiras, o riso. No fim humedecíamos as botas para disfarçar as esfoladelas, evitando assim  raspanetes ao chegarmos a casa.

Eu era o «dono da bola», tinha vários privilégios e também obrigações. Uma delas era ensebar a bola depois do jogos. Jogava sempre de princípio [aliás jogavam todos, dado que não eram demais]; conjuntamente com outro parceiro, ao meu nível, escolhíamos as nossas equipas, pelo método do pé à frente do outro, até um pé ficar em cima do do oponente; então era o dono deste pé que começava a escolher a equipa e assim prosseguiamos alternadamente.

Havia poucos protestos, a malta aguentava, o prazer de jogar tolerava tudo. Batíamo-nos em intermináveis jogos de futebol. Quando havia algum desaguisado maior, parava o jogo e procurava-se um entendimento; caso contrário não se jogava mais. Bola debaixo do braço e toca de voltar para casa, ninguém se ficava a rir.

A nossa coroa de glória foram as vitórias por 1-0 e 4-0 sobre a equipa vizinha de Vale Torno. Os desafios tinham sempre numerosa e entusiástica assistência, que se distribuía e aplaudia à volta do campo. Árbitro não havia. Os capitães das equipas desempenhavam a função.

Os «heróis», entre outros, foram: António Febre – «o Ferrugem», os irmãos - Acácio e Zé Maria, os primos - Reinaldo Mesquita e Armando Mesquita, os irmãos - Acúrcio Marcos e Ramiro Marcos, Zeca - «Padre Zé» , João Morgado, Zé Silva – «Zé Bonito», Alberto Ruivo, João Morgado, Ramiro Moras, Álvaro - «Alvarinho» , Amável - « o 115», Adérito Moras e eu Jorge, como dono da bola, fazia ao mesmo tempo de seleccionador, treinador e capitão da equipa, jogava a avançado-centro. Os guarda redes eram «o Ferrugem» e o Zé Maria. Os restantes eram escalonados, de acordo  com assiduidade aos treinos, um pouco antes dos jogos .
Pretendo assim homenagear os meus amigos que ainda estão vivos  e a memória daqueles que da «Lei da Morte se foram libertando». 

Foram momentos inesquecíveis, incomparáveis. Éramos uma grande família.

[cajoco]
Imagem Google

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Largo das Palmeiras [3/3]


O Largo das Palmeiras é um ponto de encontro entre pessoas conhecidas e desconhecidas, irmanadas pela frescura do ambiente e pela apreciação da beleza do mar.



Um ambiente convidativo para a troca de impressões, conhecimentos e memórias.


Várias senhoras continuam a marcar ali a sua presença . É a arte do encontro [e ainda bem!]

Uma inusitada Fadista também comparece no palco da vida, pondo o seu xaile a preceito, canta, sem se fazer rogada,  um lindo e triste fado menor, contrastando com a boa disposição das ouvintes...


O chapelinho no chão convida a um pequeno contributo. Os presentes e os que vão passando, são magnânimos, não se fazem rogados e depositam umas moedinhas.

O fado, a primeira paixão nacional, continua a ser um catalizador de emoções.


Entretanto, uma gaivota inoportuna, lança os seus descabidos protestos lá de cima no seu ninho.


Um viajante, alheio ao que se passa, ajeita a mochila para o seu regresso.

Descobrir o Portugal real é sempre uma surpresa.

[cajoco]

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Igreja de NOSSA SENHORA dos NAVEGANTES [2/3]

Por vezes, quando visito uma localidade e uma porta da igreja está aberta gosto de entrar. Faz parte das minhas convicções e maneira de encarar a vida.



Foi o caso da Igreja Matriz de Armação de Pêra, erigida em nome de Nossa Senhora dos Navegantes, benzida e inaugurada, em 24 de Julho de 1960, pelo Bispo do Algarve, conforme consta na placa em mármore alusiva ao acto. 

Os pescadores e as pessoas que viajam no mar, pedem protecção à Nossa Senhora dos Navegantes para poderem regressar sãos e salvos aos seus lares.



A nossa atenção foi despertada de imediato para uma aula prática de como se deve assistir e acompanhar a Santa Missa, promovida por uma motivada e motivante professora [repare-se nos alunos de dedo no ar inquirindo-a sobre as suas dúvidas].



Foi, para nós, uma lição inesperada de como se exerce o magistério com entusiasmo e evidente empenho pelo ensino.



Um pouco de recolhimento para oração e acender duas velinhas, gerir emoções em memória de quem prematuramente partiu deste mundo, contribuíram para o apaziguamento da mente e da alma, continuando algo a viver em nós, a inspirar-nos.



Um magnífico exemplar de concha baptismal foi também objecto da nossa curiosidade,



bem como um requintado e bem iluminado batistério, que espreitamos através de um gradeamento em ferro.

Em Agosto, tem lugar em Armação de Pêra a festa de N. Sra dos Navegantes, culminando com a procissâo nocturna no mar, onde participam as embarcações ricamente enfeitadas e iluminadas.


[cajoco]

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Fortaleza de Armação de Pêra [1/3]

Armação de Pêra, distante de Silves cerca de 15 km, constitui um dos maiores destinos turísticos de Portugal.

Depois de tomar um café e ler o JN, numa esplanada com vista para o mar, tirei ainda um tempinho para  uma mão cheia de fotos, perambulando por esta maravilhosa vila.

Do seu património edificado destaca-se a pequena fortaleza [Forte de Santo António da Galé] erigida no século XVII por um abastado proprietário de barcos de pesca, com o objectivo de se defender de piratas e corsários.










Podem observar-se no interior da fortaleza:


O nicho de S.to António das Areias


A capela de S.to António que data do mesmo período da construção da fortaleza.



Uma  edificação contínua  na sua ala esquerda.


Dali , funcionando como mirante turístico, divisa-se uma vasta extensão do areal da praia com cerca de 3 km


e o seu mar de águas cálidas, que convidam os veraneantes a passar umas retemperadoras férias.

[cajoco]

sábado, 1 de outubro de 2011

Olá Amigos/as!!!

Antes de mais, muito obrigado a todos/as pelas vossas visitas, com comentários amáveis, à postagem em que anunciei, no AZIMUTE, a minha PAUSA.

As pausas provocam sempre "danos". No RETORNO há que vencer a inércia para recuperar a cadência dos postes e comentários nos blogues dos/as. amigos/as. Mas a vida é feita de avanços e recuos. Portanto, só há que ganhar força e seguir em frente neste nosso reencontro .

Neste período, dentro das minhas limitações, procurei proceder a algumas alterações nos meus blogues de forma a torná-los um pouco mais apelativos .



Arranjei também um tempinho para tirar uma mão cheia de fotos, calcorreando os lugares por onde passei, e através delas vos levarei a esses mesmos lugares.

Procuro sempre fazer o melhor que posso, mas nem sempre sai bem.

Eu não consigo ficar só a assistir às coisas, quero fazer parte, então partilho com os /as amigos/as, numa base de confiança e cumplicidade, e isso basta-me.

Pronto, estou de volta!!

Um abraço a todos/as.

Jorge

sábado, 20 de agosto de 2011

PAUSA

Com o Azimute orientado já para uma imperativa pausa, para    descansar e reflectir na companhia da família e dos amigos, caminhar à beira-mar e ganhar energias em Sines [meu centro de gravidade, onde moro e vivo],  


 no Litoral Alentejano [nas minhas evasões],


no Barrocal Algarvio [meu refúgio], donde das janelas de casa familiar se avista da charneca até ás torres brancas junto ao  Mar,


 na praia em Armação de Pêra [minha praia],


e ainda momentos para por a leitura em dia,


de fotografia [perscrutada pelo nosso olhar] de que vos darei conta em algumas crónicas [se é assim que se lhes pode chamar]; vivenciar assim uma multiplicidade de situações, emoções, pessoas, factos e lugares, envolvendo-nos, discretamente , com o mundo que nos rodeia...

Amigos/as!! A todos/as e a cada um/a de vós, deixo aqui o meu abraço e... até breve!!
Jorge

Fotos [cajoco]

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Moçambique... Apagando as distâncias...

...a saudade, às vezes, faz bem ao coração.

Valoriza os sentimentos, acende as esperanças e apaga as distâncias.






Fonte: email recebido

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Porto Colégio / Almeida Garrett [2]




As salas de estudo

Os alunos eram distribuídos por amplas salas de estudo de acordo com o ano que frequentavam.
Cada carteira, para dois lugares ,tinha um tampo e subjacente um espaço para os livros cadernos e material escolar. Ao lado, em baixo, havia um armário com uma prateleira e respectiva porta. Quer o tampo, quer a porta tinham duas argolas para se poderem fechar a aloquete [cadeado]. Estes acessórios de segurança eram por nossa conta.

Era nesta sala, vigiada por um perfeito, que estudávamos e púnhamos em dia os nossos deveres em silêncio, nada de basqueiro.  Quando faltava a luz, isso é que gerava grande confusão.l

Por vezes, à socapa, em vez de estudarmos lia-mos revistas de banda desenhada – Gibi, Guri –, e livros de aventuras - principalmente da Colecção Salgari. Esses livros e revistas eram às vezes confiscados pelo prefeito ou pelo director de disciplina – o Ratão –  quando aparecia sub-repticiamente na sala de estudo.

O economato

Recorríamos ao economato, duas vezes por semana, para aquisição de livros e artigos de papelaria que necessitássemos. Estes artigos eram fornecidos, mediante requisição prévia, após as aulas, durante as horas de estudo. Por vezes exagerávamos nas aquisições e daí resultava uma conta calada.
Pelo que me toca, uma vez fui chamado à Direcção, que considerou que os meus pedidos tinham excedido o razoável. Os meus pais iriam achar exagerada a despesa. Propuseram que aquela despesa poderia ser distribuída por três meses, desde que me comprometesse a ter mais contenção em despesas futuras. Assim foi acordado e cumprido. Mesmo assim o meu pai achou as contas exageradas.

Os dormitórios

Havia três dormitórios: o dos pequenos, para os do 1º 2º anos, o pavilhão – para os dos 3º,4º e 5º anos e o dos médios e grandes para os do 6º e7º anos. Eu frequentei os dois primeiros.
Todos os dormitórios eram vigiados permanentemente por um prefeito, que dormiam num quarto contíguo com porta para o interior do dormitório. Portanto nada de folestrias para não arranjar alguma estrangeirinha.
O quarto do director de disciplina era contíguo aos dormitórios dos grandes e dos pequenos; com porta de entrada para o átrio de separação dos dois dormitórios e outra porta que dava para o interior do dormitório dos pequenos.

Tomávamos banho duas vezes por semana. Levantávamo-nos às seis horas, seguindo em pijama e chinelos para os balneários, levando cada um a sua toalha de banho, sabonete e roupa interior para mudar – cuecas e camisola interior.
Alguns ficavam na cama a moinar, alegando estarem constipados, com febre, ou outra desculpa qualquer, que nem sempre era aceite pelo perfeito, sendo mesmo obrigados a ir ao banho.

A enfermaria

A enfermaria ficava no 2º piso da ala direita, do edifício, à entrada do Colégio. Tinha cerca de uma dezena de camas.
Quando  precisávamos de qualquer curativo, tratamento, recorriamos aos serviços prestados na enfermaria.
Quando qualquer aluno tinha uma doença ou doença infecciosa – sarampo, varicela, etc. – ficava nela internado. Eu, recorri a ela somente para tratamento de um ou outro arranhão. Tínhamos autorização, sempre que fosse possível, para visitar os nossos colegas na enfermaria.

A barbearia

A barbearia situava-se no 2º piso do corpo central do edifício. Funcionava depois das horas de aulas, durante as horas de estudo. Os alunos eram chamados por ordem de inscrição. O barbeiro era muito cuidadoso e educado. Por vezes tomava medidas de profilaxia para a evitar a propagação de parasitas nas nossas cabeças, desinfectando-as e cortando o cabelo mais curto se necessário. Isto chamava logo a atenção dos colegas quando o contemplado regressava à sala de estudo, sendo motivo de gozo à socapa.
Aconteceu-me isso uma vez. Assim que dei conta que o barbeiro estava a cortar-me o cabelo mais curto que o normal, não estive com demasias, levantei-me da cadeira, com o cabelo meio cortado e meio por cortar, regressei à sala de estudo assim mesmo. Aquilo foi motivo de gozo para os outros companheiros, mas não me dei por achado. Passados instantes fui chamado à direcção. Aí, o padre Adão, quis saber a razão do meu abandono prematuro da barbearia. Lá contei a minha história. Ele então disse-me: "Sabes! Tu tinhas umas sementezinhas na cabeça e o barbeiro teve que as eliminar. Agora vais lá voltar para ele acabar de te cortar o cabelo". Um pouco contrariado lá fui mas... com a condição de não mo cortar mais curto.

A rouparia

A rouparia funcionava na cave do corpo central do edifício. Lá estava guardada, em cacifos com o número de cada aluno – o meu era o 134 – a roupa interior de cada um devidamente passada a ferro e dobrada.
Alguns tinham tudo do bom e melhor, desde as camisas de popelina, até aos pijamas de popelina e flanela. Eu e outros transmontanos, limitávamo-nos às camisas e pijamas feitos nas costureiras lá da terra.

O responsável pela rouparia era o bom do Sr. Bento, homem já de meia-idade, alto e de cabelos já brancos puxados para trás com auxílio de brilhantina, como se usava na altura. Tinha toda a paciência do mundo para atender as nossas reclamações, principalmente quando queríamos determinada roupa para vestir aos domingos.
Fazia também maravilhosas bolas de trapos, que vendia por cinco coroas, para jogarmos futebol no recreio, embora fosse proibido, dando, de vez em quando, uns chutos na atmosfera. ou então acertando num vidro que os pais tinham que pagar. Motivo porque muitas vezes essas bolas eram confiscadas  pelo prefeito.

Actividades Culturais e Recreativas 

Aos sábados, no período da manhã, tinham lugar as actividades recreativas e culturais em que nós os alunos uniformizados com a farda da mocidade portuguesa – de camisa verde com o emblema da Mocidade Portuguesa, calção caqui com cinto de couro e fivela com um S de Salazar – marchávamos, desfilando.
A Mocidade Portuguesa enquadrava a juventude em idade escolar, obrigatoriamente entre os 7 e 14 anos, voluntariamente até à incorporação militar. No âmbito da MP era também organizadas paradas, acampamentos e sessões de ginástica..



 Os professores de ginástica: Major Tamegão, Prof. Edgar Tamegão e um Tenente da GNR, cujo nome não me ocorre, coordenavam e dirigiam essas actividades.

No fim íamos para a sala de cinema, ver documentários, – alguns deles de propaganda do Estado Novo - e filmes com o Bucha e o Estica, o Tarzan, os três Tarolas, de Índios e Cowboys, etc.
Havia ainda os espectáculos colectivos, de ginástica, de propaganda do 10 de Junho, Dia de Portugal no Estádio do Lima, que faziam parte da actividade regular da Mocidade Portuguesa.

Portugal era o país onde mandava Salazar e as pessoas viviam contentinhas no seu canto.

Saídas aos domingos e feriados

Os alunos internos, que não saíam com os familiares, permaneciam no colégio; os que estavam autorizados pelos pais saíam sòzinhos e os outros em passeios colectivos, acompanhados por um prefeito, passear pela cidade: visitar o Museu Soares dos Reis [único na altura] ou o Palácio de Cristal,  uma grande obra de arte que juntava pedra ferro e cristal, daí o nome que lhe foi atribuído.



Em 1950 foi demolido, para dar lugar ao Pavilhão dos Desportos na altura muito criticado e apodado de O Cogumelo. Aí podíamos andar à vontade. Passeávamos, alugávamos bicicletas e barcos no lago – principalmente as gaivotas que nos regalávamos a pedalar. 
Alguns, sempre que podiam, aproveitavam também para catrapiscar ou namoriscar.


No verão, aos Domingos, os jardins do Palácio de Cristal eram dos mais frequentados da cidade do Porto. Famílias inteiras passeavam nas suas amplas e arborizadas avenidas.

O cinema

Quando fazia mau tempo, a melhor alternativa era uma sessão de cinema, uma das coisas que mais incentivava na altura a nossa imaginação.
Cada sessão normalmente continha: Noticiário, documentários, desenhos animados e o filme [normalmente depois do primeiro intervalo].
Conseguida a devida autorização lá íamos sempre acompanhados pelo Prefeito ver filmes de aventuras e de capa e espada, na altura muito em voga e apreciados pelos cinéfilos. Os mais crescidos, no entanto, preferiam filmes de Amor e Romance.

Texto: cajoco
Fotos: Google

domingo, 17 de julho de 2011

Porto / Colégio Almeida Garrett [1]

Concluida a Instrução-primária, ainda não tinha completado dez anos, deixei Vilarinho da Castanheira, a fim de me preparar para o exame de admissão aos liceus, como aluno interno no Colégio Almeida Garrett no Porto.

Na Praça Coronel Pacheco há dois portões gémeos, um de cada lado, o da esquerda era do Colégio Almeida Garrett, para rapazes e o da direita do Liceu Carolina Michäelis, para raparigas. Os edifícios das duas instituições eram semelhantes.

Dei entrada no Colégio acompanhado pelo meu pai, sendo recebidos pelo Padre Avelino que promoveu a todas as formalidades necessárias ao processo da minha admissão. Mandou também chamar um aluno – o Farinha – que encarregou de me mostrar as instalações do Colégio.

Adaptei-me facilmente, tendo-me até despedido do meu pai um pouco à pressa preocupado com um colega que tinha acabado de chegar e estava a chorar. Eu e o Farinha lá o fomos confortar.

Em Outubro fiz o exame de admissão, no então liceu D. Manuel l, com a classificação final de 13 valores. Foi a melhor nota dos alunos do colégio. Os meus pais apareceram de surpresa, no corredor do liceu, após o exame.  Eu estava feliz, embora com um aspecto esgrouviado e com um enorme nó na gravata.

O Padre Venceslau, «O Ratão» -  director de disciplina, ofereceu-me uma corneta em barro como prémio. Eu, radiante, no recreio toquei a corneta alto e bom som. Resultado…«O Ratão» mandou-me chamar, pediu para a guardar até às férias do Natal. Nunca mais lhe pus a vista em cima.

O Colégio Almeida Garrett, com internato e externato, tinha um ideário religioso, imagem de rigor e disciplina conducentes a criar hábitos de estudo e convívio em grupo. Havia horas para tudo. O toque da sineta – a cabra, como lhe chamávamos alertava-nos para o início e o fim das actividades.

Era dirigido por cinco directores: os Padres Guimarães Dias, Adão e Avelino. O Dr. Aguiar e o Eng.º Araújo. Os dois primeiros eram ainda do tempo em que o meu pai frequentou o Colégio.

Os professores eram dos melhores - óptimos. De alguns só retive as alcunhas. Recordo alguns nomes: Manarte, Morgado e Eduardo Pinheiro – Português, Soutinho – Desenhoe Matemática, «o Laberco» – Matemática, Portocarrero – Geografia, Ramôa – Ciências Naturais, «o Bacalhau» e o «Chation» – Francês, etc.

Ainda me recordo das primeiras frases, que o professor de Francês escreveu no quadro: Noblesse oblige e Heurreur à la paresse. E do professor de Inglês: Struggle for life... 

 Não tenho memória de no Colégio haver indisciplina nas aulas ou fora delas.

Não éramos santos. Havia copianços e algumas faltas às aulas, os professores tinham as suas alcunhas, mas tudo se resumia a isso mesmo. Num momento de maior barulho na aula, uma observação ou franzir de sobrolho do professor bastava para que voltasse o silêncio.

Quando algum aluno pisava o risco era convidado, pelo professor a sair da sala de aula [neste aspecto, retenho uma frase do professor de Inglês: "mé filho fecha a porta por fora..."; depois o Director de Disciplina resolvia o assunto com um castigo adequado. Normalmente, o aluno prevaricador, ficava impedido de ir para o recreio ou em casos mais graves impedido de sair aos domingos, quer na companhia dos prefeitos ou da família.

Fora das aulas os alunos eram acompanhados em permanência pelos prefeitos -  nas salas de estudo, no refeitório, nos recreios, na capela, nos dormitórios, etc. Recordo o Taveira [muito severo] e o Sampaio e Melo - os nomes mais sonantes.

O Taveira e o Sampaio eram professores na Escola Primária do Colégio, cujo edifício ficava afastado dos pavilhões principais, ao fundo das áreas dos recreios, junto ao enorme quintal do Colégio.

A actividade diária começava às 6h30 com o toque da cabra, levantávamo-nos, lavávamo-nos, vestiamo-nos e seguiamos em forma dois a dois para a capela rezar. Daqui para a sala de estudo até às 8h15, donde seguíamos sempre em forma para o refeitório a fim de tomarmos o pequeno-almoço, seguindo-se o recreio, onde jogávamos à bola ao berlinde e aos polícias e ladrões.

Às 8h50 a incansável cabra dava por terminado o recreio, para irmos à sala de estudo buscar os livros e cadernos necessários para assistirmos às aulas que começavam às 9h00 prolongando-se até ao meio-dia, com dois intervalos de permeio.
Findo este período de aulas, seguíamos para os respectivos dormitórios, para nos arranjarmos para o almoço, indo, sempre em forma.
Durante o almoço, mantinhamo-nos em silêncio até acabarmos de comer a sopa. Então, o silêncio era interrompido pelo prefeito que em voz alta dizia: «Podem falar». Então podíamos falar à vontade até ao fim da refeição. No fim seguia-se o recreio, daqui para a sala de estudo e para as aulas que começavam às duas e terminavam às cinco.

Novamente lanche, recreio, salas de estudo, dormitórios, jantar, recreio, salas de estudo, capela, e dormitórios, terminando o dia às 21h30. Era esta a rotina diária no colégio. 


Actividades físicas e religiosas

Tínhamos várias actividades de Educação Física duas vezes por semana. Podiam ser exercícios ao ar livre, no espaço dos recreios, ou ginástica aplicada no ginásio com aparelhos: exercício nos espaldares, saltos de plinto com trampolim, subir as escadas de corda e as cordas até ao tecto e ainda os exercícios em argolas.

Por vezes, aos sábados, realizavam-se Saraus de Ginástica Aplicada em que se exibiam os melhores alunos na disciplina e o próprio Prof. Edgar Tamegão, que fechava sempre a exibição de cada exercício, precedido pelo Monterroso, Madureira e Salazar, que eram os melhores alunos em aparelhos e nos saltos em trampolim.


Havia também o Orfeão do Colégio, de que fazia parte, dirigido pelo Professor Tino, com o seu inseparável lamiré, com que assinalava o começo de qualquer canção.ou composição musical. Usava sapatos com polainitos, muito em voga naquela época.




Aos Domingos e Feriados religiosos, na parte da manhã. Assistíamos à missa na Capela do Colégio. Umas vezes celebrada pelo Padre Adão, outras pelo Padre Avelino. O sacristão era o José da Rocha Macedo, ex-seminarista, meu amigo e colega de turma.

Texto. Cajoco
Imagens Google