Porto de Sines

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

A Instrução Primária de "outrora"

Continuo a contar histórias da minha infância em Vilarinho da Castanheira. Recordo com nostalgia o tempo em que fiz a Instrução Primária.
As matrículas eram no início de Outubro. As aulas começavam após o "5 de Outubro", data comemorativa da implantação da República em Portugal. 
Rapazes e raparigas tinham aulas em escolas separadas e distantes.
A professora "de sempre" das raparigas foi a D. Inês, que fazia do professorado um verdadeiro  sacerdócio; tanto que quando se reformou, a pedido do bispo de Bragança , aceitou ser fundaddora de um convento de monjas [creio que em Sendim], onde ficou até ao fim dos seus dias.
Íamos todos a pé de sacola às costas para a escola. Alguns descalços, outros mais remediados, calçados com socos ou botas cardadas, manufacturados por medida pelos soqueiros e sapateiros da terra. Tirar as medidas para o calçado era de per si um ritual motivo de grande satisfação e expectativa.
O soqueiro Jingeira tinha um filho – o Clotário – com sete dedos no pé direito, um fenómeno local e não só.

A Escola ficava numa posição sobranceira ao adro da Igreja. Era muito antiga e exígua, com uma sala para as quatro classes [cerca de 50 alunos] dirigidas por um só professor.
Uma lareira escavada na parede, resguardada por uma porta em chapa de ferro, com lenha a arder no interior,  aquecia a sala amenizando o frio cortante no Inverno.  Chovia lá dentro.  Alguidares e baldes eram o recurso para aparar a água da chuva. 
À esquerda da lareira ficava secretária do[a] professor[a]. Do outro lado pontuavam o famigerado quadro preto, giz e apagador, complementados nas carteiras dos alunos pela lousa e o lápis de pedra, assim como o caderno para  cópias e ditados.
Os alunos das 1ª e 2ª classes acomodavam-se em  pesadas mesas  com banco corrido para 4. Os das 3ª e 4ª classes em carteiras de 2 lugares. Cada aluno tinha na carteira à sua frente um tinteiro  para molhar a pena na  escrita de cópias e ditados.
Em frente ao alto na parede permaneciam: os retratos de Salazar e Carmona. com um Crucifixo de permeio.
O Estado Novo foi o regime autoritário que mais durou em Portugal. Salazar, seu arquitecto e protagonista, marcou o País de forma total. Nós, os garotos, parodiávamos com o nome dizendo que Sal (dá) azar.
Sanitários não existiam. Um aluno quando estava atrapalhado pedia do lugar ao professor: "sô pessô dá cença de ir lá fora?!"  O professor perguntava: "fazer o quê?!" O aluno respondia: "fazer o que é preciso". Então o professor autorizava e "o que era preciso" era feito de imediato – alguns tinham as calças rachadas no "sim senhor" para facilitar a tarefa – na loja por baixo da escola, no quintal  vizinho ou  no "canêlho" mais próximo.
Era o tempo dos livros únicos. Livros escolares celebravam Deus, Pátria e Família, Salazar e a Mocidade Portuguesa nas suas capas e conteúdos. A orientação do ensino era pela moral cristã. A hierarquia começava em casa com o pai como "chefe de família". Nos manuais incluiam-se "frases obrigatórias" retiradas dos discursos de Salazar.
Aos Sábados, saíamos da escola em formação marchando e entoando cânticos patrióticos até ao adro da igreja, onde nos divertíamos com jogos tradicionais: o tiro liro, o eixo,  a bola, etc.
Fora das aulas a brincadeira estendia-se aos jogos: do pino, da burra, da bilharda e à... pedrada que por vezes terminava com uma cabeça rachada e cada um a fugir para seu lado.

Foram três os professores: na primeira e terceira classes, o professor Miranda, na segunda, a professora Cândida Ochoa e na quarta, a professora Albertina. Todos transmitiram bons ensinamentos e deixaram-me boas recordações. Muitos dos conhecimentos que adquiri na instrução primária ainda hoje perduram.

O professor Miranda era o mais rigoroso. Era muito sério, não era para brincadeiras.
Eram tempos de palmatória, alguns alunos foram vítimas dos seus castigos corporais. Recordo o castigo aplicado ao João da Angélica, meu vizinho e amigo – uma série de palmatoadas no rabo, que ficou roxo e negro.
Quando cheguei a casa, contei logo à minha mãe que, na primeira oportunidade, lhe chamou a atenção: "Professor isso não se faz! Não pode castigar dessa maneira!"
Resposta do professor: "Reconheço que exagerei, mas enervei-me!"
O pobre do João é que "ficou com elas", "ninguém lhas tirou".
A professora Ochoa era mais ponderada, raramente castigava os alunos. Usava outros métodos. A tabuada, essa matemática para definir uma operação de multiplicação  e tirar as provas dos nove e real, estava na ponta da língua.
Dizia, por exemplo, que tinha em casa um "bicho-de-sete-cabeças", destinado ao melhor aluno da escola naquele ano. Consegui sê-lo, só que nunca consegui ver tal bicho.
A professora Albertina dava-nos mais liberdade de estudar. Um mês antes do exame da quarta classe, logo ao nascer do sol, íamos buscar a chave da escola, que ela deixava debaixo da porta de casa, para recapitularmos os rios, as serras e os caminhos de ferro nos mapas de Portugal e das Colónias.
Incentivava as "sabatinas" entre os alunos da 4ª classe. Fazíamos perguntas uns aos outros sobre a matéria dada para ver quem se saía melhor.
Para  o exame da 4ªclasse, deslocàmo-nos [de burro ou de cavalo]  14 Km até Carrazeda de Ansiães onde prestamos provas. Felizmente ficamos todos [dez alunos] aprovados, tendo no regresso e à chegada à aldeia manifestado verdadeira efusão de alegria e contentamento.
Numa altura em que o país oferecia aos alunos pouco mais que a instrução primária, apenas os filhos de meia dúzia de pessoas com algumas posses tinham possibilidade de continuar a estudar. 
Alguns, como recurso, emigraram mais tarde para o Brasil, EUA, Canadá, Venezuela ou para outros países, com as suas famílias procurar melhores condições de vida.
Os restantes  aprendiam uma "arte" [sapateiro, pedreiro, carpinteiro, alfaiate, etc.] ou mantinham-se na terra cultivando os campos.

domingo, 10 de outubro de 2010

As vindimas de "antanho"


Guardo memórias preciosas da minha infância e adolescência em Vilarinho da Castanheira, no recôndito Nordeste Transmontano, que quero partilhar convosco.

Em Setembro e Outubro as uvas estavam bem maduras para comer. Apresentavam-se em várias espécies, brancas ou tintas.
Embora grande parte das uvas se destinassem à produção de vinho, havia uma grande tradição de colheita de uvas para conserva.

O feitor, o circunspecto, honesto e leal Sr. António Lereno - homem alto,  seco de carnes e de andar baloiçante. hábito que porvinha de caminhar  nas calçadas - rogava as mulheres e os homens para a vindima.
Tinha dois filhos um pouco mais novos que eu, a Gentil e o Artur que, aliados à mãe, eram motivo dos seus desabafos, dado que na hora das refeições, em que todos comiam ao mesmo tempo do enorme prato comum, "suava para os acompanhar". Quem mais depressa se despachasse melhor alimentado ficava.



As vindimas estavam na sua máxima força no mês de Setembro. O pessoal não parava, em plena vindima, sempre a cortar uvas, durante cerca de três semanas. Recordo a lida do campo de outros tempos. Da enxertia, passando pela poda, cava, sulfatação e vindima.


Acompanhava a vindima nas vinhas de S. Bartolomeu, Olgas, Fraga dos Pais e Fontaínhas. Era a minha derradeira actividade no fim das "férias grandes", antes rumar para o colégio Almeida Garrett, onde estudava como aluno interno.

Mãos ágeis das mulheres, que falavam alto e animavam com os seus cantares a vindima, cortavam as uvas que lançavam para as cestas de uma asa. Cheias de uvas as cestas eram despejadas em canastras e transportadas  pelas  bestas de carga para os lagares.


Acompanhava a pisa das lagaradas de uvas feita, pelos homens descalços de ceroulas arregaçadas e pernas “tintadas”, no lagar de pedra. Primeiro os homens cortavam o lagar a compasso. Depois de cortado o lagar, então dispersavam-se a pisar o vinho em "liberdade".


O transporte do vinho mosto para a adega era feito por mulheres com um cântaro à cabeça apoiado numa rodilha [a "sogra" ] ou por bestas com engarelas para quatro cântaros,  para armazenagem do vinho tinto e rubro em pipas e toneis, sendo prèviamente registados a giz  por mim, em grupos até cinco, num aro da respectiva vasilha.

A produção da águardente bagaceira, feita a partir do bagaço de uva fermentado, no alambique, tinha lugar na alquitarra.
O momento culminante era o da prova, quando os homens de copo na mão aguardavam com expectativa os primeiros pingos de aguardente cristalina.

Havia ainda a jeropiga (bebida feita de mosto, aguardente e açúcar) - bebida preferida pelas mulheres de então -  com que o meu pai as brindava -  na altura da degranha do milho.

Em Vilarinho as vindimas não paravam durante semanas.

Fotos Google

sábado, 2 de outubro de 2010

Maria Pita [Uma mulher de armas]

Na minha recente visita à Galiza, região dum meu trisavô que emigrou em finais do século XIX para o Brasil, tive a oportunidade de revisitar a Corunha [na forma oficial galega A Coruña].
É uma cidade fresca e alegre, virada para o Atlântico, considerada o motor da Galiza.
Os edifícios da zona ribeirinha possuem um encanto especial.


No centro da Corunha fica a Praça Maria Pita, erguida em 1860. É a mais importante da Corunha. É aí que se encontra o magnífico edifício da Câmara Municipal.


A praça de forma quadrada, toda circundada por arcadas, é o principal ponto de encontro entre cidadãos e visitantes.


É lá que está o monumento em memória  de Maria Pita, uma heroína da defesa da Corunha em 1589.


As tropas inglesas da Armada comandadas pelo pirata Francis Drake cercaram a Corunha, abriram uma brecha na muralha e começaram o assalto à cidade velha, dirigido por um alferes com a bandeira da resistência na mão que conseguiu subir à parte mais alta da muralha. Maria Pita com a arma do seu defunto marido [foi casada três vezes] matou o inglês que transportava a bandeira, transmitindo assim força aos seus compatriotas e conseguindo parar o assalto.


A chama da LIBERDADE, sempre acesa dia e noite, mantem viva a memória da heroína galega - uma mulher de armas.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

XACOBEO 2010

Ano Xacobeo, ano em que o 25 de Julho [dia da descoberta dos restos mortais de São Tiago] calha num Domingo. Isto sucede com uma cadência regular de 6-5-6-11 anos de maneira que em cada século se celebram 14 anos Xacobeo.

Santiago de Compostela é um dos mais importantes locais de culto do Mundo e actualmente Património da Humanidade.
Este ano estimam-se em 10 milhôes os peregrinos que visitarão Santiago.

São Tiago era um apóstolo, um seguidor, um amigo de Jesus Cristo. Veio  pregar as "boas novas" no Ocidente e na Galiza. Ao retornar à Palestina foi preso e decapitado no ano 44 D C.
A história conta que os seus restos mortais foram trazidos num navio para o Ocidente por dois dos seus seguidores, Teodoro e Anastácio.
Oito séculos depois  um ermitâo, de nome Pelágio, teve uma visão de uma chuva de estrêlas, que levou à descoberta do seu túmulo e os dos seus dois seguidores.


Visitei Santiago de Compostela em 1965 e 1972 aquando das minhas 1ª e 2ª licenças graciosas. Posteriormente em 1995 e a partir do ano 2000 todos os lustros - 6 vezes ao todo. Sempre senti tratar-se de uma cidade especial.


"Chuva e tormentas", foi o prognóstico metereológico para a caminhada do dia seguinte, que aguardávamos com certa expectativa. Previsão que desmobilizou parte dos "potenciais peregrinos", principalmente homens. As mulheres foram mais determinadas, poucas desistiram.

Peregrinar é um acto de Fé. É um caminho e como tal pressupõe um itinerário, mas não se esgotam nele, tem que se lhe associar uma intenção e um objectivo.


Estava uma manhã de céu cinzento, a prometer mais chuva que outra coisa [sol?..nem vê-lo].
A nossa caminhada prosseguia em ritmo apressado, o que não impedia que os peregrinos passassem por nós no seu passo cadenciado, apoiados na sua bengala e com a imprescindível mochila às costas.


[Um espigueiro(?) construido em 1893]


Tratou-se da reconstituição dum trecho da última etapa dos peregrinos até Compostela, pelo caminho original até ao Monte do Gozo [pouco mais de 7 Km, em cerca de 1h30].  Acabaram-se as tréguas e a chuva começou a cair com intensidade crescente.


[Capela de Santa Marta no Monte do Gozo]



À chegada ao ao Monte do Gozo os peregrinos perscrutam o horizonte à procura de avistar, pela primeira vez, Santiago e as torres da Catedral.

Conta a tradição que,  no Cabo Finisterra, os peregrinos queimavam as roupas e banhavam-se no Atlântico para nova descoberta pessoal, para uma nova vida, um novo caminho.


A entrada na Catedral, de estilo românico, onde se encontra o túmulo de São Tiago, é o objectivo final de quem percorre os "Caminhos de Santiago".

O mais importante é o Caminho Francês, com cerca de 900 Km, que os peregrinos percorrem em cerca de 20/25 dias, caminhando cerca de 9 horas por dia.


A Porta Santa  [ encimada pelas estátuas de São Tiago, ladeado pelos seus dois seguidores Teodoro e Anastácio]  está sempre fechada, excepto nos Anos Santos [sòmente abre no dia 31 de Dezembro] e nos  Anos Xacobeos [está aberta todos os dias].
A fila era longa e sinuosa, todos aguardavam a sua oportunidade para fazer o deambulatório [entrar, passar por detrás do Santo, abraçá-lo nas costas e passar pelo túmulo que contem as suas relíquias].


O Botafumeiro, famoso turíbulo, maior incensário do mundo, é puxado por oito tiraboleiros, vestidos de vermelho, que puxando as cordas o põem em movimento [á esquerda na imagem].

Antigamente o incenso do botafumeiro servia para disfarçar o mau cheiro dos peregrinos que pernoitavam dentro da Catedral.


[Partida para o regresso de malas aviadas]

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Adeus Verão. Olá Amigos!!






Antes de mais, quero cumprimentá-los e saudá-los, dando-lhes conta da retoma de actividade do Azimute.

UM... ATÉ BREVE!!... não o foi na verdadeira acepção da palavra, mas acabou por sê-lo [pelo menos para mim] uma vez que o tempo passou "num abrir e fechar de olhos".

O silêncio que alcancei nas minhas evasões para o Barrocal Algarvio [entre o Litoral e a Serra], onde mora a tranquiliade, fez-me sentir melhor. Ali tenho liberdade e não há limitações nenhumas. É puro descanso com a natureza por companheira. O silêncio possibilita-nos reparar nas coisas mais simples e valorizar o que é belo. Ouvir os sons da natureza.

Quem não se lembra do som característico das cigarras nos dias quentes de Verão? O seu canto é não só uma das armas de sedução dos machos para atrair as fêmeas, mas também para alertar para a presença de predadores.
Das borboletas [flores que voam], que quando alguém as quer caçar não fogem seduzem. São tão vaidosas que chegam a irritar.
Os gafanhotos herbívoros, por vezes de comportamento canibal, quando há a escassez de alimento e devoram-se uns aos outros.
As sardaniscas a aquecerem-se ao sol, ao início da manhã para ganharem mais mobilidade.
Os pardais buliçosos, quais galinhas, espojando-se na terra.

O Barrocal é interessante tem muito para se ver, pena é que seja a região mais pobre do Algarve.



Muitas alfarrobeiras, amendoeiras, tristes, silenciosas e abandonadas com o chão pejado dos seus frutos sem que alguém se disponha a apanhá-los e colhê-los? O mesmo vai já acontecendo com as laranjeiras. Os tempos mudaram, o custo da mão de obra não compensa. Havendo quem dê as alfarrobas e as amêndoas só pela limpeza do terreno. É mesmo assim!...

Aproveitei o tempo para recarregar baterias através das minhas caminhadas matinais e respirando ar puro, revisitando o litoral, a serra e... passeando um pouco.
Tudo isso procurarei partilhar convosco, na medida do possível.

UM ABRAÇO E... BOA SEMANA!!
Jorge

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Hoje eu estou cansado, por favor não me peçam nada!!!











Espero que os meus amigos tenham sorrido...


O azimute [ blog/aprendiz] solidariza-se com estes amigos, sente-se também um pouco cansado, vai fazer uma PAUSA , neste período estival para: repensar e optimizar este blog [estrutrura, temas, comentários], regressar à leitura, ao contacto com a natureza, usufruir de momentos ao ar livre mais tranquilo e relaxante no barrocal algarvio, não resistindo certamente ao desafio do mar para uns mergulhos e caminhadas à beira-mar.

Aos meus amigos virtuais que solidariamente me apoiam com o seu carinho e amizade, apelo ao bálsamo da sua tolerância e compreensão para eventuais pequenos desentendimentos ou mal-entendidos [não muitos diga-se] enviando daqui um grande abraço para todos, despedindo-me com


UM...

ATÉ BREVE!!

JORGE

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Silves / Xilb ou Xelb [II]









Retomando a história do domínio árabe na Península Ibérica giramos à volta da figura lendária de Al Mu'tamid Ibn Abbad político-poeta, que nos legou um património único que urge preservar, dar a conhecer e reviver.

Com a queda do Califado de Córdoba e na ausência de um poder aglutinante, surgiram na Península Ibérica em 1031, uma série de reinos independentes, movidos e disputados pelas diferentes forças locais: árabes, moçárabes e convertidos.

É neste ambiente de disputa que os Abábidas criam a Taifa de Sevilha, que cedo engloba a região do Gharb e Silves, Al Mu'tamid Ibn Abbad, Senhor de Sevilha, torna-se também senhor de Silves, e nomeia como Governador o seu filho Al Mu'tamid Ibn Abbad, nascido em 1040 em Beja, que fará de Silves a sua capital, a partir de 1053.

É ao lado de Ibn Ammar, poeta natural da região [Estombar] e que se tornará seu amigo, que Al Mu'tamid reúne em Silves uma corte de intelectuais, poetas e geógrafos, [Mariame Alansari, Assilba, Ibn Qasi, Ibn Badrum, etc.] que farão de Silves uma capital, não só política como administrativa, mas também cultural, atingindo um esplendor nunca visto e uma importância considerável em todo o Extremo Ocidente.

A vida de Al Mu 'tamid / Poeta do Destino está na poesia e a poesia na sua vida.

É dele este poema:


Inocultável

por receio de quem espia
com muita inveja a roer
ela não veio nesse dia
pra assim traída não ser
pla luz do rosto esplende,
plas jóias a tilintar,
e plo perfume do ambar
a que o corpo rescende.

é que ao rosto, com manto,
tapá-lo inda poderia,
e as jóias entretanto,
fàcilmente as tiraria,
mas a fragância do encanto
pra ocultá-la que faria?


Em 1069, Al Mu'tamid deixa Silves e torna-se rei de Sevilha confiando Silves ao seu amigo Ibn 'Ammar.

O relacionamento entre Al' Mutamid e Ibn 'Ammar torna-se cada vez mais difícil, possessivo e inclusivamente ofensivo, chegando ao ponto de Ibn 'Ammar compor poemas em que ridiculariza 'Itimad, a bela mulher do rei-poeta, conhecida na corte de Sevilha como a Saídat-al-Kubra [a grande senhora], odiada por muitos juristas e religiosos prontos a traírem o seu nome e do seu soberano.


A AL MU'TAMID

Nada me move, meu príncipe,
Senão a tua vontade.
Contigo vou,
Como viajante noturno
Guiado pelo clarão dos relâmpagos.
Queres voltar para a tua amada?
Vai num rápido veleiro
E seguirei no teu encalço,
Ou salta antes para a sela,
Contigo irei também.
E quando,
Graças à protecção divina,
Chegarmos aos umbrais do teu palácio
Permite que torne sòzinho à minha casa.
Não percas tempo a sacar da espada!
Lança-te aos pés da que tem a cintura delicada
E compensa-a do tempo perdido.
Beija-a e aperta-a contra o peito.
E murmurem vossas bocas
Meigas e doces palavras,
Como os pássaros se respondem mutuamente
Em suaves cantos ao romper de alva




Perdoa e ganhará o amor
Um outro realce, outra beleza.
É que se punires será o rancor
A tomar mais evidência e mais clareza.

(...)

Perdoa! O que partilhamos me redime
Nos espaços perfumados do Allah
Apaga os vestígios do meu crime!
Venha da clemência o teu soprar
E tudo enfim desaparecerá.

(...)

Que se eu morrer, fique contigo
Uma réstea de consolação.
Morrerei mas levarei comigo
A violência da minha afeição.


Poemas escritos por Ibn 'Ammar


Ibn 'Ammar trai várias vezes Al Mu'tamid que em nome do passado sempre lhe perdoa, mas no final acaba por mandar prendê-lo e mata-o na sua cela.

O final do reinado do rei-poeta fica marcado pelas ameaças cristãs ao seu reino, que o levam a pedir apoio ao novo soberano de Marrocos, Yussuf Ibn Tachfin, líder da Dinastia Almorávida e fundador da cidade de Marraquexe.

A entrada dos Almorávidas na Península é impiedosa, unificando o território sob o seu poder e desterrando Al'Mutamid e sua mulher 'Itimad para Agmat, nos arredores de Marraquexe, onde terminam os seus dias num miserável cativeiro.


"Grilheta, não sabes que já sou teu?
Porque és dura e sem piedade?
Se esse ferro deste sangue já bebeu
E a minha própria carne já morde
Não me roas os ossos por maldade."


Poema escrito por Al Mu'tamid





Túmulo de Al Mu'tamid




Actualmente a figura de Al Mu'tamid constitui mais do que nunca o ponto de convergência de sábios, poetas, historiadores, linguistas ou responsáveis políticos para recuperação de um passado comum e uma estratégia de cooperação entre Portugal Espanha e Marrocos.

Fonte:Internet

terça-feira, 27 de julho de 2010

Silves / Xilb ou Xelb [I]

São frequentes as minhas evasões para a Quinta das Cortes, quinta secular de compropriedade familiar, situada no alto do barrocal algarvio, entre a beira-mar e a serra, no sopé de um cerro, próxima de S. Bartolomeu de Messines [terra do guerrilheiro Remexido e do poeta João de Deus].

Ali ignorando o relógio, desconhecendo horários, rodeado de alfarrobeiras, figueiras e amendoeiras, com o mar a desafiar-me na linha do horizonte, tenho tempo para divagações e invocações de quiméricos projectos, justapondo as minhas raízes rurais transmontanas.

De manhãzinha ou à tardinha, gosto de andar pelos carreiros , por vezes, surpreendido por uma cobra que os atravessa ou um coelho que salta da sua cama próxima, ao mesmo tempo que me regalo com o canto dos passarinhos e das rolas gordas, das poupas, dos picanços e outras aves, que esvoaçam de árvore em árvore, bem como perscrutar as corujas que se acoitam nos buracos das paredes da nora, à boca da qual vou provar o eco.
Observo ainda o brilho reluzente dos pirilampos, luzes perenes no escuro das noites.
Os meus pássaros preferidos, desde a infância, são os irrequietos pintassilgos doirados, pela alegria do seu canto e cores vivas da sua plumagem. De quando em também diviso um camaleão, regalado ao sol ou movimentando-se lentamente, num ramo de uma árvore à espera de lançar a língua pegajosa [enrolada dentro da boca] para fora, por forma a alcançar o alimento.















Nas minhas ausências deste paraíso rural vou a Messines ou a Silves onde no Al Karib, num ambiente tranquilo, saboreio o meu café [com um rebuçado] e leio as últimas no meu diário preferido, o JN.
O nome Al Karib faz jus às tradições árabes de Silves.

Silves cidade histórica do Algarve, situa-se também no barrocal algarvio. A sua importância ao longo da sua história deve-se muito ao rio Arade, que corre lentamente para o mar e sempre serviu a cidade e as suas férteis margens.

As suas origens, muito remotas, são de difícil datação. Pensa-se ter origem anterior á chegada dos cartagineses, talvez de fundação fenícia [900 a.C.].

OS ÁRABES EM SILVES

É no período Árabe, entre o século VIII e XII, quando o seu nome é Xilb ou Xelb, que atinge o seu esplendor tornando-se uma das mais importantes cidades do Garb al-Andalus. Foi então várias vezes capital e desse período legou-nos uma quantidade de vestígios que não deixam dúvidas sobre o seu nível cultural dessa época.

Ocupada pelos árabes vindos do Iémen e por colonos norte-africanos após a ocupação da península ibérica no século VIII, Silves passou a fazer parte do califado Omíada de Damasco e abraçou a civilização especial árabe. A cidade era o berço da dinastia independente, a de Banu Muzain.

Em 1053 foi conquistada por Al-Mutamid, senhor do Reino de Taifa de Sevilha através do comando do seu filho Al-Mutamid que transformaria Silves numa cidade cosmopolita, admirada por todo o império Muçulmano, onde a cultura assumiu posição de grande importância "A poesia de AL-MU’TAMID".

Além de Governador de Silves e Rei de Sevilha de 1053 a 1091, Al-Mu’tamid permaneceu na história como grande poeta que nos levou a uma admirável e nostálgica poesia, que poetas, escritores e historiadores árabes não deixaram de glorificar. De características amorosas, trágicas e históricas a sua poesia testemunha não só uma época histórica muito conturbada, como descreve com grande minúcia os ambientes exuberantes, os prazeres, as vivências eos sentimentos que rodearam.

É de Al-Mu’tamid a mais antiga referência ao Palácio das Varandas e a uma das mais belas descrições de Silves:



EVOCAÇÃO DE SILVES


SAÚDA, por mim, Abû Bakr
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.

Saúda o Palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca o esqueceu,
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava
Entre ancas opulentas
e tão estreitas cinturas.

Ai quantas noites fiquei,
lá no remanso do rio,
Preso nos jogos do amor
com a pulseira curva,
Igual aos meandros da água,
enquanto o tempo passava…

ela me servia vinho:
o vinho do seu olhar,
às vezes o do seu copo,
e outras vezes o da boca.

tangia-me o alaúde
e eis que eu estremecia
como se tivesse ouvido
tendões de colos cortados.

Mas se retirava as vestes
grácil detalhe mostrando,
era ramo de salgueiro
que me abria o seu botão
para ostentar a flor.

A sua mulher Itimad Al-Rumaykya um dos seus mais belos poemas de amor.

Acróstico

Invisível a meus olhos
Trago-te sempre no coração
Te envio um adeus feito paixão
E lágrimas de pena com insónia.
Inventaste como possuir-me
E eu, ó indomável, submissa vou ficando!
Meu desejo é estar contigo sempre,
Oxalá se realize tal vontade!
Asseguro-te que o juramento que nos une
Nunca a distância o fará quebrar.
Doce é o nome que é o teu


E aqui fica escrito no poema: Itimad

Al Mutamid Ibn Abbad, séc. XI in Adalberto Alves “Al Mu' tamid, poeta do destino” 1999





Estátuas que evocam personagens árabes



Praça com o nome do famoso filho do rei que no século XI conquistou Silves.
Esta praça estende-se pela margem direita do rio Arade.


É um espaço privilegiado onde se realizam várias actividades culturais durante o Verão.