Retomando a história do domínio árabe na Península Ibérica giramos à volta da figura lendária de Al Mu'tamid Ibn Abbad político-poeta, que nos legou um património único que urge preservar, dar a conhecer e reviver.
É neste ambiente de disputa que os Abábidas criam a Taifa de Sevilha, que cedo engloba a região do Gharb e Silves, Al Mu'tamid Ibn Abbad, Senhor de Sevilha, torna-se também senhor de Silves, e nomeia como Governador o seu filho Al Mu'tamid Ibn Abbad, nascido em 1040 em Beja, que fará de Silves a sua capital, a partir de 1053.
É ao lado de Ibn Ammar, poeta natural da região [Estombar] e que se tornará seu amigo, que Al Mu'tamid reúne em Silves uma corte de intelectuais, poetas e geógrafos, [Mariame Alansari, Assilba, Ibn Qasi, Ibn Badrum, etc.] que farão de Silves uma capital, não só política como administrativa, mas também cultural, atingindo um esplendor nunca visto e uma importância considerável em todo o Extremo Ocidente.
É dele este poema:
por receio de quem espia
com muita inveja a roer
ela não veio nesse dia
pra assim traída não ser
pla luz do rosto esplende,
plas jóias a tilintar,
e plo perfume do ambar
a que o corpo rescende.
é que ao rosto, com manto,
tapá-lo inda poderia,
e as jóias entretanto,
fàcilmente as tiraria,
mas a fragância do encanto
pra ocultá-la que faria?
O relacionamento entre Al' Mutamid e Ibn 'Ammar torna-se cada vez mais difícil, possessivo e inclusivamente ofensivo, chegando ao ponto de Ibn 'Ammar compor poemas em que ridiculariza 'Itimad, a bela mulher do rei-poeta, conhecida na corte de Sevilha como a Saídat-al-Kubra [a grande senhora], odiada por muitos juristas e religiosos prontos a traírem o seu nome e do seu soberano.
Nada me move, meu príncipe,
Senão a tua vontade.
Contigo vou,
Como viajante noturno
Guiado pelo clarão dos relâmpagos.
Queres voltar para a tua amada?
Vai num rápido veleiro
E seguirei no teu encalço,
Ou salta antes para a sela,
Contigo irei também.
E quando,
Graças à protecção divina,
Chegarmos aos umbrais do teu palácio
Permite que torne sòzinho à minha casa.
Não percas tempo a sacar da espada!
Lança-te aos pés da que tem a cintura delicada
E compensa-a do tempo perdido.
Beija-a e aperta-a contra o peito.
E murmurem vossas bocas
Meigas e doces palavras,
Como os pássaros se respondem mutuamente
Em suaves cantos ao romper de alva
Um outro realce, outra beleza.
É que se punires será o rancor
A tomar mais evidência e mais clareza.
(...)
Perdoa! O que partilhamos me redime
Nos espaços perfumados do Allah
Apaga os vestígios do meu crime!
Venha da clemência o teu soprar
E tudo enfim desaparecerá.
(...)
Que se eu morrer, fique contigo
Uma réstea de consolação.
Morrerei mas levarei comigo
A violência da minha afeição.
O final do reinado do rei-poeta fica marcado pelas ameaças cristãs ao seu reino, que o levam a pedir apoio ao novo soberano de Marrocos, Yussuf Ibn Tachfin, líder da Dinastia Almorávida e fundador da cidade de Marraquexe.
A entrada dos Almorávidas na Península é impiedosa, unificando o território sob o seu poder e desterrando Al'Mutamid e sua mulher 'Itimad para Agmat, nos arredores de Marraquexe, onde terminam os seus dias num miserável cativeiro.
"Grilheta, não sabes que já sou teu?
Porque és dura e sem piedade?
Se esse ferro deste sangue já bebeu
E a minha própria carne já morde
Não me roas os ossos por maldade."
Poema escrito por Al Mu'tamid



Actualmente a figura de Al Mu'tamid constitui mais do que nunca o ponto de convergência de sábios, poetas, historiadores, linguistas ou responsáveis políticos para recuperação de um passado comum e uma estratégia de cooperação entre Portugal Espanha e Marrocos.
Fonte:Internet


























