Porto de Sines

Porto de Sines

segunda-feira, 10 de maio de 2010

JANTINHA?!?!

Esta é de doer....

A pergunta foi: qual é a função do apóstrofo?
[Para quem não se lembre, o apóstrofo é aquele "risquinho" que serve para suprimir vogais entre duas palavras....

Ex: caixa d'água

E a resposta imperdível merece um troféu:

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O "Aníbal Ferrador"

Os piões e a baraça

A caixa das ferramentas



Naquele tempo, os artífices eram designados pelo nome próprio agregado ao da profissão: "Aníbal Albardeiro", "Artur Alfaiate", "Fernando Latoeiro", "Alfredo Sapateiro", etc. , ou então, prevalecia uma característica do aspecto físico: "João Grande"[barbeiro], "Horácio Manco"[ferrador] e outras designações: "Pressas"[serrador], "Fala Barato"[carpinteiro] e por aí adiante...

Era ao "Aníbal Ferrador" que, eu e os outros garotos, recorríamos para substituir os ferrões de origem dos nossos piões, por outros maiores e mais afiados, a fim de competirmos no jogo do pião, dando maiores nicas e por conseguinte infligindo maiores estragos, aos dos nossos "adversários". [Alguns preveniam-se com outro pião só para levar nicas].
O bom do Senhor Aníbal, tinha uma pachorra infinda para aturar as nossas madurezas.
Quando tinha trabalho na forja e/ou na bigorna, dizia: " Deixem pra aí os piões e venham precurá-los daqui a um cibo.
E, daí a um cibo, lá estávamos novamente para levar os piões prontos artilhados com ferrões de competição, novezinhos em folha.
Quanto é Senhor Aníbal? - peguntávamos. Não é nada, pagam soitordia.
Era também o "Aníbal Ferrador” [pai do Albano, meu colega de classe, na Escola Primária] , sempre bonacheirão, atencioso e bem disposto, [não dispensava os seus copitos do tinto e de aguardente bagaceira destilada na alquitarra ], quem substituía, com muita competência, as ferraduras da Carriça - uma magnífica égua, de grande estimação, do meu pai.
Então, de costas viradas para o animal, levantava-lhe a pata e começava por desferrá-lo, arrancando os cravos da ferradura, a fim de a soltar do casco. Seguidamente, sempre com a caixa da ferramenta à mão, aparava a base do casco com um formão, procurando adaptar-lhe a ferradura nova em ferro, afeiçoada prèviamente na bigorna. Uma vez adaptada a ferradura, fixava-a com os cravos a martelo, que apareciam mais acima no casco, dobrando-os com o martelo e cortando-os com a turquês. Por fim, com a grosa, limava o rebordo do casco à face exterior da ferradura.
Ferrar um cavalo demorava cerca de uma hora. As más ferrações podem deixar cavalos coxos.
Os bois e alguma besta mais brava, tinham que ir ao tronco, situado no Eirô, ao fundo das traseiras do adro da Igreja, onde eram ferrados com a pata amarrada com uma soga.
O meu colega Albano, feita a 4ª classe, emigrou para o Brasil...Nunca mais os nossos caminhos se cruzaram na estrada desta vida.
... Cresci, estudei, cabulei e... um dia, fiz as malas, evadi-me das minhas raízes, embarquei no Cais de Alcântara, a bordo do paquete Moçambique, na rota de Vasco da Gama, até... Moçambique.
O "Anibal Ferrador" ficou na amnésia selectiva da minha memória.
Sete anos depois retornei, de licença graciosa, à Metrópole.
Num fim de tarde, depois da sesta [costume estival, naquele tempo] ia a pé com o meu pai para o campo, quando a mulher do "Aníbal Ferrador", muito aflita, se lhe dirige: "Senhor doutor o meu homem parece que tem a atriz [icterícia].
O médico foi ver o doente e constatou que padecia de cirrose, já num estádio tão adiantado que, no dia seguinte, o acompanhou de comboio até ao Porto, deixando-o internado e recomendado no Hospital de Santo António.
Passados dias, já noitinha, passou uma ambulância na rua e, pouco depois, o médico foi chamado para ir ver o "Aníbal Ferrador".
De regresso a casa, após um longo silêncio, o médico desabafou: "O Anibal Ferrador" não deve passar desta noite". E foi assim que, no dia seguinte, o bom do Senhor Aníbal, que evoco com muito carinho e emoção, entregou a alma ao Criador...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

QUASE


Ainda pior que a convicção do não,
e a incerteza do talvez,
É a desilusão de um Quase!

É o Quase que me incomoda,
que me entristece,
que me mata
trazendo tudo o que poderia
ter sido e não foi

Quem quase ganhou
ainda joga!

Quem quase passou
Ainda estuda!

Quem quase amou
Não amou!

Basta pensar nas oportunidades
que escaparam pelos dedos,
nas ideias que nunca sairam do papel,
por essa maldita mania
de viver no Outono.

Pergunto-me, às vezes,
o que nos leva a escolher
uma vida morna.

A resposta eu sei de cor, está estampada
Na distância e na frieza dos sorrisos
Na frouxidão dos abraços,
Na indiferença de um bom dia quase que sussurrado

Sobra covardia e falta de coragem até para se ser feliz.
A paixão queima! O amor enlouquece! O desejo trai!

Talvez estes fossem
bons motivos para decidir
entre a alegria e a dor

Mas não são.

Se a vida estivésse mesmo
no meio-termo...

O mar não teria ondas!
Os dias seriam nublados!
O arco-íris em tons de cinza!

[Sarah Westphal]

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Quem não se lembra?!!!



Rádio Clube de Moçambique
Mensagem de Boas Noites

Para todos os que viajam a bordo dos barcos que percorrem os sete mares.
Bom tempo e boa viagem!

Para os humildes guardiões do oceano, os faroleiros, que iluminam os escolhos da beira-mar.
Que a paz desça sobre a vossa solidão e paire longe o perigo do nevoeiro!

Para as tripulações das linhas aéreas, cruzando alto o céu dos cinco continentes.
Que o perigo se afaste do vosso voo e que as aterragens sejam seguras!

Para os que trabalham e viajam nos comboios, através desta África imensa.
Que a viagem prossiga sem sobressaltos e em segurança!

Para os que conduzem viaturas ao longo das estradas solitárias e mergulhadas na treva.
Que saibam moderar a velocidade e que regressem sãos e salvos ao lar!

Às mães que docemente debruçam sobre os berços a sua inquietação.
Que durmam em paz e acordem repousadas e tranquilas!

Aos soldados da paz e aos que guiam ambulâncias.
Que Deus vos proteja dos perigos e riscos das vossas nobres profissões!

Aos médicos e enfermeiros que socorrem os doentes e exaustos.
Que Deus vos abençoe na vossa missão de misericórdia!

Aos que vivem no mato e a ele deram a sua juventude, as suas forças, os seus sonhos.
O nosso pensamento vai para vós, para o isolamento e a luta constante das vossas vidas.

E a todos os demais que nos ouvis, onde quer que vos encontreis, sãos ou enfermos.
Que esta mensagem de fraternidade chegue, através do éter, aos vossos corações.

BOA NOITE E QUE A BENÇÃO DO CÉU DESÇA SOBRE VÓS!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O BARDO DO SONHO

O bardo do sonho dura desde o momento de se começar a dormir até ao momento de se acordar e inclui o sonhar e o dormir sem sonhar. Adormecer é considerado semelhante ao processo de morrer, dado que a consciência gradualmente se vai esvaindo. O estado inconsciente que ocorre quando o sono nos toma é encarado como sendo a mente a descansar no seu estado natural. Para utilizar oportunidades que este bardo oferece, é necessário ver a vida acordada normal como insubstancial e ilusória, como o estado do sonho - prática do "corpo ilusório".
A prática do corpo ilusório procura inverter a nossa dependência da vida comum consciente através de práticas destinadas a controlar os sonhos, simples emanações da vida de sonho. Uma interpretação do bardo do sonho pode assim levar-nos a uma visão da natureza ilusória de todos os fenómenos, à medida que nos apercebemos que a nossa vida acordada não é diferente do estado de sonho.

in O Caminho Tibetano

terça-feira, 13 de abril de 2010

Borda d'água

À borda d'água
Longa caminhada na costa
Dilui-se toda a mágoa
A Natureza já foi reposta.

Só as pegadas na areia
Ficam como sinal humano
De dor, e o vento me premeia
Como esponja apago o dano.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O "minério" e o "racionamento"











Nas guerras há sempre «riquezas» feitas rapidamente quando está em causa a utilização de um bem que a mão humana pode retirar à terra.
O minério, era assim que o povo se expressava quando se tratava do volfrâmio, cujo período áureo se verificou no início da 2ª Guerra Mundial, quando o negócio de exploração do volfrâmio nas minas estava em plena laboração. Toda a gente, de Vilarinho e das povoações mais próximas, se dedicou a essa actividade, trabalhando como mineiros, nas minas, ou por conta própria .
O volfrâmio, era usado na composição do metal duro do armamento militar.
Existia na freguesia de Vilarinho da Castanheira uma mina denominada Portela.
O povo andava alvoroçado, como que contaminado pela prosperidade local.

Eu não fugia à regra. Ia para a varanda, e lá de cima, quando me apercebia que alguém passava na rua com um pedaço de minério na mão, exclamava: «Isca! Isca! Se não iscar catanho não peta». [Riscando a parte negra e brilhante do minério; se a cor do risco daí resultante fosse castanha, comprovava a existência de volfrâmio].
Ocorriam ainda grandes rivalidades, na exploração e comercialização do volfrâmio. Algumas famílias passaram a degladiarem-se, por divergências nos locais de prospecção do volfrâmio. Perderam-se vidas nas minas, devido aos desabamentos de terras e rixas .
Um jovem, filho da terra, morreu soterrado num desabamento de terras da mina – todos conseguiram fugir, ele ficou lá, esmagado.
Alguns fizeram bons negócios e enriqueceram com o volfrâmio. Compravam-no e guardavam-no em sacos debaixo das camas. Posteriormente transportavam-no, de noite, para as separadoras no Porto. Aí, o minério puro era apurado e o teor de volfrâmio vendido, ao princípio aos alemães, depois aos ingleses.
Foi uma «época de oiro». Toda a gente «fazia» dinheiro, era também «época do contrabando e das candongas» .

Os novos ricos faziam gala da sua ostentação, exibindo: dedos recheados de aneis, canetas de tinta permanente no bolso, junto à lapela do casaco, os melhores chapéus [o chapéu era o luxo de qualquer pessoa], " lendo" o jornal de pernas para o ar, ou então recorrendo aos garotos da escola para lhes escreverem as cartas e lerem as notícias; outros continuaram pobres, fazendo jus ao ditado. "O dinheiro mal ganhado água o deu água o levou"...

Em contraponto com esta euforia de pseudo-riqueza, resultante da exploração do volfrâmio, ocorriam muitas situações de miséria e de pobreza. O acesso aos bens essenciais de mercearia estava limitado pelas senhas de racionamento.
Na altura, o que se comprava e quanto, era decidido consoante o número de elementos do agregado familiar, e não só. Sem se saber porquê alguns tinham direito a mais senhas, mesmo que tivessem menos filhos.
Mesmo assim, havia muita gente sem dinheiro para levantar os artigos que lhe eram atribuídos, limitando-se a ceder as suas senhas ou até vendê-las a quem tivesse mais poder de compra, ou ainda trocá-las por batatas ou centeio.
Gasolina e petróleo praticamente não existiam à venda. Os automóveis, designados por «carros ligeiros», andavam a gasogénio. Os candeeiros a petróleo foram substituídos por gasómetros e lamparinas com azeite. O sabão era feito com borras de azeite e soda cáustica, despejadas em caixotes compridos e altos, forrados com jornais. Depois de consolidado era cortado em barras com um arame fino esticado. Era muito rijo, de cor castanha escura, e fazia com a água pouca espuma.


No fim da guerra, a exploração do volfrâmio entrou em declíneo e a solução, para muitos, foi o regresso ao amanho das suas terras, onde tinham o apoio da família.

sexta-feira, 26 de março de 2010

A Quadra Pascal

A minha memória já não é a mesma de outros tempos. Mesmo assim gosto mais de recordar que comemorar.
A Páscoa era também uma festa de grandes tradições. Era precedida da Quaresma, quadra de sacrifícios.
Na minha infância, no Domingo de Ramos, todos levavam o ramo de oliveira – mais ou menos ataviado – para ser benzido na missa.
Durante a Semana Santa - a semana da Paixão de Cristo, em que os Santos estavam tapados, havia uma certa contenção de todos, face à solenidade da ocasião.
Assim, o tão conhecido folar, representava simbolicamente o presente dos padrinhos aos afilhados, impondo-se como preceito irem recebê-lo a casa dos padrinhos no Domingo de Páscoa [ir pedir o bolo]. Ritual precedido da entrega do ramo de oliveira dos afilhados aos padrinhos no Domingo de Páscoa.
Faziam-se os folares de carne e os folares doces. Andava tudo numa azáfama. A boa da D. Purificação, prima do meu pai, vinha para nossa casa tratar da sua confecção. Esta tinha os seus segredos, principalmente no modo de amassar a farinha, - de forma que ficasse muito leve - na distribuição da carne, dos ovos [chegavam a gastar-se quinze dúzias de ovos] que em formas de chapa eram levados para assar no forno comunitário de lenha, onde cada família fazia a sua massa.
Na Sexta-feira Santa, o andor do Senhor dos Passos, saía da Capela do Calvário e percorria toda a aldeia em procissão acompanhada pela banda de música, que tocava música sacra.
No Sábado da Aleluia, ao bater do meio-dia, o sineiro tocava os sinos da igreja e os garotos, eu incluido, corriam para ver qual era o primeiro a tocar os sinos nas capelas da aldeia.
No Domingo de Páscoa, antes da missa, o padre percorria a aldeia com o Palio. [O Palio era um sobre-céu portátil, suspenso por meio de varas, que servia nas procissões para cobrir o padre] .
À frente, o Gilberto transportava o crucifixo. [O Gilberto era uma figura típica de Vilarinho. O seu fervor religioso só era ultrapassado pelo gosto da «pinga»; era um bom copo, benza-o Deus].
As pessoas mais notáveis da aldeia eram convidadas para pegar nas varas do Palio. Eu e o amigo Reinaldo, por vezes, pegávamos nas duas primeiras varas do Palio, em substituição dos nossos pais.
Seguia-se a missa, no fim da qual o Padre percorria a aldeia com Senhor e entrava nas casas abençoando-as e ao mesmo tempo tirando o compasso e recebendo os donativos dos paroquianos, nas casas que visitavam.
Era assim a Quadra Pascal na minha aldeia...

domingo, 21 de março de 2010

A DEUSA E O MACACO


De acordo com uma antiga lenda budista tibetana, quando o mundo foi criado não havia seres humanos. O bodhisattava da compaixão, Avalokiteshvara, e a sua consorte, Tara, enviaram as suas encarnações para o Tibete. A incarnação de Avalokiteshvara tomou a forma de um macaco, enquanto Tara era uma ogra canibal Tagsen Mo. O macaco fez voto de celibato estrito e vivia em reclusão meditativa, Tagsen Mo estava muito solitária e chorava e cantava sobre a sua solidão.
O macaco ouviu os gritos desesperados da ogra e ficou cheio de compaixão. Tagsen Mo pediu-lhe que casasse de imediato com ela, mas ele inicialmente recusou por causa dos seus votos. No entanto, concordou depois de consultar Avalokiteshvara e o casal deu origem a seis filhos, de quem se diz serem os progenitores das seis classes que habitam o universo: deuses, semideuses, espíritos famintos, animais e habitantes do inferno. Por sua vez, a descendência dos seis filhos deu origem aos primeiros tibetanos.

in O caminho Tibetano

quarta-feira, 17 de março de 2010

Primavera


Estamos sentados
E neflibatas bebemos coca-cola
nas públicas cadeiras da praça.

E
sobre as envenenadas acácias
andorinhas geometrizam o azul do céu
e despercebidos passarinhos africanos
cantam nos verdes braços vegetais
de um parque de cidade moçambicana
onde jovens discutem as pernas de Brigitte Bardot
e abúlicas mãos tamborilam
no tampo da mesa fúteis dedos.

Mas um grupo de estivadores
vem do cais vestindo
serapilheiras
e passa a três metros e meio
das cómodas cadeiras da praça
enquanto
cocacolizados
odes cantam nos ramos os bilo-bilana
e na surdina das tímidas meias-palavras
e subentendidos silêncios
ansiosos todos esperamos
indolentes as flores
da nossa comum Primavera.


[José Craveirinha]