Porto de Sines

Porto de Sines

terça-feira, 6 de abril de 2010

O "minério" e o "racionamento"











Nas guerras há sempre «riquezas» feitas rapidamente quando está em causa a utilização de um bem que a mão humana pode retirar à terra.
O minério, era assim que o povo se expressava quando se tratava do volfrâmio, cujo período áureo se verificou no início da 2ª Guerra Mundial, quando o negócio de exploração do volfrâmio nas minas estava em plena laboração. Toda a gente, de Vilarinho e das povoações mais próximas, se dedicou a essa actividade, trabalhando como mineiros, nas minas, ou por conta própria .
O volfrâmio, era usado na composição do metal duro do armamento militar.
Existia na freguesia de Vilarinho da Castanheira uma mina denominada Portela.
O povo andava alvoroçado, como que contaminado pela prosperidade local.

Eu não fugia à regra. Ia para a varanda, e lá de cima, quando me apercebia que alguém passava na rua com um pedaço de minério na mão, exclamava: «Isca! Isca! Se não iscar catanho não peta». [Riscando a parte negra e brilhante do minério; se a cor do risco daí resultante fosse castanha, comprovava a existência de volfrâmio].
Ocorriam ainda grandes rivalidades, na exploração e comercialização do volfrâmio. Algumas famílias passaram a degladiarem-se, por divergências nos locais de prospecção do volfrâmio. Perderam-se vidas nas minas, devido aos desabamentos de terras e rixas .
Um jovem, filho da terra, morreu soterrado num desabamento de terras da mina – todos conseguiram fugir, ele ficou lá, esmagado.
Alguns fizeram bons negócios e enriqueceram com o volfrâmio. Compravam-no e guardavam-no em sacos debaixo das camas. Posteriormente transportavam-no, de noite, para as separadoras no Porto. Aí, o minério puro era apurado e o teor de volfrâmio vendido, ao princípio aos alemães, depois aos ingleses.
Foi uma «época de oiro». Toda a gente «fazia» dinheiro, era também «época do contrabando e das candongas» .

Os novos ricos faziam gala da sua ostentação, exibindo: dedos recheados de aneis, canetas de tinta permanente no bolso, junto à lapela do casaco, os melhores chapéus [o chapéu era o luxo de qualquer pessoa], " lendo" o jornal de pernas para o ar, ou então recorrendo aos garotos da escola para lhes escreverem as cartas e lerem as notícias; outros continuaram pobres, fazendo jus ao ditado. "O dinheiro mal ganhado água o deu água o levou"...

Em contraponto com esta euforia de pseudo-riqueza, resultante da exploração do volfrâmio, ocorriam muitas situações de miséria e de pobreza. O acesso aos bens essenciais de mercearia estava limitado pelas senhas de racionamento.
Na altura, o que se comprava e quanto, era decidido consoante o número de elementos do agregado familiar, e não só. Sem se saber porquê alguns tinham direito a mais senhas, mesmo que tivessem menos filhos.
Mesmo assim, havia muita gente sem dinheiro para levantar os artigos que lhe eram atribuídos, limitando-se a ceder as suas senhas ou até vendê-las a quem tivesse mais poder de compra, ou ainda trocá-las por batatas ou centeio.
Gasolina e petróleo praticamente não existiam à venda. Os automóveis, designados por «carros ligeiros», andavam a gasogénio. Os candeeiros a petróleo foram substituídos por gasómetros e lamparinas com azeite. O sabão era feito com borras de azeite e soda cáustica, despejadas em caixotes compridos e altos, forrados com jornais. Depois de consolidado era cortado em barras com um arame fino esticado. Era muito rijo, de cor castanha escura, e fazia com a água pouca espuma.


No fim da guerra, a exploração do volfrâmio entrou em declíneo e a solução, para muitos, foi o regresso ao amanho das suas terras, onde tinham o apoio da família.

sexta-feira, 26 de março de 2010

A Quadra Pascal

A minha memória já não é a mesma de outros tempos. Mesmo assim gosto mais de recordar que comemorar.
A Páscoa era também uma festa de grandes tradições. Era precedida da Quaresma, quadra de sacrifícios.
Na minha infância, no Domingo de Ramos, todos levavam o ramo de oliveira – mais ou menos ataviado – para ser benzido na missa.
Durante a Semana Santa - a semana da Paixão de Cristo, em que os Santos estavam tapados, havia uma certa contenção de todos, face à solenidade da ocasião.
Assim, o tão conhecido folar, representava simbolicamente o presente dos padrinhos aos afilhados, impondo-se como preceito irem recebê-lo a casa dos padrinhos no Domingo de Páscoa [ir pedir o bolo]. Ritual precedido da entrega do ramo de oliveira dos afilhados aos padrinhos no Domingo de Páscoa.
Faziam-se os folares de carne e os folares doces. Andava tudo numa azáfama. A boa da D. Purificação, prima do meu pai, vinha para nossa casa tratar da sua confecção. Esta tinha os seus segredos, principalmente no modo de amassar a farinha, - de forma que ficasse muito leve - na distribuição da carne, dos ovos [chegavam a gastar-se quinze dúzias de ovos] que em formas de chapa eram levados para assar no forno comunitário de lenha, onde cada família fazia a sua massa.
Na Sexta-feira Santa, o andor do Senhor dos Passos, saía da Capela do Calvário e percorria toda a aldeia em procissão acompanhada pela banda de música, que tocava música sacra.
No Sábado da Aleluia, ao bater do meio-dia, o sineiro tocava os sinos da igreja e os garotos, eu incluido, corriam para ver qual era o primeiro a tocar os sinos nas capelas da aldeia.
No Domingo de Páscoa, antes da missa, o padre percorria a aldeia com o Palio. [O Palio era um sobre-céu portátil, suspenso por meio de varas, que servia nas procissões para cobrir o padre] .
À frente, o Gilberto transportava o crucifixo. [O Gilberto era uma figura típica de Vilarinho. O seu fervor religioso só era ultrapassado pelo gosto da «pinga»; era um bom copo, benza-o Deus].
As pessoas mais notáveis da aldeia eram convidadas para pegar nas varas do Palio. Eu e o amigo Reinaldo, por vezes, pegávamos nas duas primeiras varas do Palio, em substituição dos nossos pais.
Seguia-se a missa, no fim da qual o Padre percorria a aldeia com Senhor e entrava nas casas abençoando-as e ao mesmo tempo tirando o compasso e recebendo os donativos dos paroquianos, nas casas que visitavam.
Era assim a Quadra Pascal na minha aldeia...

domingo, 21 de março de 2010

A DEUSA E O MACACO


De acordo com uma antiga lenda budista tibetana, quando o mundo foi criado não havia seres humanos. O bodhisattava da compaixão, Avalokiteshvara, e a sua consorte, Tara, enviaram as suas encarnações para o Tibete. A incarnação de Avalokiteshvara tomou a forma de um macaco, enquanto Tara era uma ogra canibal Tagsen Mo. O macaco fez voto de celibato estrito e vivia em reclusão meditativa, Tagsen Mo estava muito solitária e chorava e cantava sobre a sua solidão.
O macaco ouviu os gritos desesperados da ogra e ficou cheio de compaixão. Tagsen Mo pediu-lhe que casasse de imediato com ela, mas ele inicialmente recusou por causa dos seus votos. No entanto, concordou depois de consultar Avalokiteshvara e o casal deu origem a seis filhos, de quem se diz serem os progenitores das seis classes que habitam o universo: deuses, semideuses, espíritos famintos, animais e habitantes do inferno. Por sua vez, a descendência dos seis filhos deu origem aos primeiros tibetanos.

in O caminho Tibetano

quarta-feira, 17 de março de 2010

Primavera


Estamos sentados
E neflibatas bebemos coca-cola
nas públicas cadeiras da praça.

E
sobre as envenenadas acácias
andorinhas geometrizam o azul do céu
e despercebidos passarinhos africanos
cantam nos verdes braços vegetais
de um parque de cidade moçambicana
onde jovens discutem as pernas de Brigitte Bardot
e abúlicas mãos tamborilam
no tampo da mesa fúteis dedos.

Mas um grupo de estivadores
vem do cais vestindo
serapilheiras
e passa a três metros e meio
das cómodas cadeiras da praça
enquanto
cocacolizados
odes cantam nos ramos os bilo-bilana
e na surdina das tímidas meias-palavras
e subentendidos silêncios
ansiosos todos esperamos
indolentes as flores
da nossa comum Primavera.


[José Craveirinha]

sábado, 13 de março de 2010

Minha Aldeia

Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.

Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prizão permanente
cada qual é seu irmão.
Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que imergem
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.


[António Gedeão]

segunda-feira, 8 de março de 2010

O SINO E O VJARA




















Os dois símbolos mais comuns associados ao budismo tântrico são o sino e o "relâmpago de diamante" (vjara), utensílios usados em quase todos os rituais tântricos para representar a união da sabedoria com os meios eficazes. A vjara representa o caminho espiritual, que culmina na realização da sabedoria, enquanto o sino é o símbolo da verdade do vazio - o tocar do sino é a proclamação da verdade em todos os reinos.
O sino representa a sabedoria "feminina" de Buda e a vjara a sua compaixão e meios eficazes "masculinos", e juntos simbolizam a unidade indissolúvel dos polos masculinos e femininos da experiência. Também representam a unidade do samsara com o nirvana: o praticante que viaja através do samsara em direcção ao nirvana acaba por se aperceber que o caminho e o objectivo são inseparáveis.

in O Caminho Tibetano

quarta-feira, 3 de março de 2010

UM POEMA DE SOLIDÃO

"Esta terra montanhosa cheia de prados e de
flores claras é um lugar alegre.

Na floresta as árvores dançam e os macacos
brincam,

pássaros dão voz a todos os tipos de belas
melodias e as abelhas esvoaçam e flutuam.

Magníficas cascatas de torrente de Verão
e Inverno,
neblinas de Outono e de Primavera rolam
em novelos,
O arco-íris cintila noite e dia.

Nesta solidão, Mila, o de vestes de algodão
encontra a sua alegria.

Contemplo o vazio de todas as coisas e vejo
a luz clara,

Feliz quando toda a espécie de coisas aparecem
perante mim: quanto mais coisas aparecem
mais feliz eu fico,

Dado que o meu corpo e mente estão livres
do mal.

Feliz estou enquanto as coisas redemoinham
à minha volta-

No seu ir e vir fico feliz, por estar livre
dos altos e baixos da paixão.

No centro absoluto das visões estou feliz,
por estar livre da paixão.

Feliz na transformação da dor em alegria.
feliz na força do meu corpo,

Feliz nas canções triunfantes que canto,
ao dançar a correr e a saltar,

Feliz ao transformar as palavras em sons
que murmuro

Feliz no meu poder espontâneo..."
in O Caminho Tibetano

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um grande amigo



Lembra-te meu amigo:
uma porta é sempre uma porta
mesmo sendo velha
pendurada em gonzos enferrujados
continua a ser uma passagem para ambos os lados.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Homem e a formiga














O homem
guiava máquina no trabalho
e a formiga
construía sem betoneira
silenciosamente
sem complexos nem diplomas.

E enquanto o homem
invitaminado erguia
casas grandes de cimento e ferro
no chão crescia a obra colectiva
do insecto consciencializado.


E de betão armado
elevador e ar condicionado
para os brancos e negros
indianos
mulatos e chineses dos andaimes
com retratos obrigatórios
nas chapas das radiografias
as casas grandes razando as nuvens
não chegaram.

E no chão
o formigueiro bastou
à incivilizada formiga.

[José Craveirinha]


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Barack Obama recebe o Dalai-Lama


O Budismo constitui a verdadeira essência da civilização tibetana, definindo os tibetanos como povo e como nação.
Na sequência da invasão do Tibete, a China iniciou uma campanha brutal de repressão religiosa, para substituir o Budismo pelo Comunismo e consolidar o controlo do país.
Vários milhares de refugiados tibetanos preferiram o exílio a viver sob o regime do governo comunista chinês. A maioria dos 140.000 refugiados tibetanos vivem na Índia e no Nepal.
O Dalai-Lama fugiu para a Índia em 1959, passando a viver em exílio na estação de montanha em Dharamsala. Viaja muito pelo estrangeiro, divulgando o pensamento tibetano e sendo ao mesmo tempo um infatigável mensageiro da tolerância, tornando-se um líder espiritual amado e respeitado no mundo inteiro.
O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao recebê-lo ontem na Casa Branca, apesar das advertências e ameaças da China, referindo que esta visita poria em causa as relações as relações sino-americanas, manifestou num comunicado da Casa Branca, o seu apoio e elogio ao Dalai-Lama pelo seu comprimisso da não violência em favor do diálogo, incentivando ainda a China e os enviados do Dalai-Lama a prosseguirem nos seus esforços a fim de resolverem as suas diferenças.