
Nas guerras há sempre «riquezas» feitas rapidamente quando está em causa a utilização de um bem que a mão humana pode retirar à terra.
O minério, era assim que o povo se expressava quando se tratava do volfrâmio, cujo período áureo se verificou no início da 2ª Guerra Mundial, quando o negócio de exploração do volfrâmio nas minas estava em plena laboração. Toda a gente, de Vilarinho e das povoações mais próximas, se dedicou a essa actividade, trabalhando como mineiros, nas minas, ou por conta própria .
O volfrâmio, era usado na composição do metal duro do armamento militar.
Existia na freguesia de Vilarinho da Castanheira uma mina denominada Portela.
O povo andava alvoroçado, como que contaminado pela prosperidade local.
Eu não fugia à regra. Ia para a varanda, e lá de cima, quando me apercebia que alguém passava na rua com um pedaço de minério na mão, exclamava: «Isca! Isca! Se não iscar catanho não peta». [Riscando a parte negra e brilhante do minério; se a cor do risco daí resultante fosse castanha, comprovava a existência de volfrâmio].
Ocorriam ainda grandes rivalidades, na exploração e comercialização do volfrâmio. Algumas famílias passaram a degladiarem-se, por divergências nos locais de prospecção do volfrâmio. Perderam-se vidas nas minas, devido aos desabamentos de terras e rixas .
Um jovem, filho da terra, morreu soterrado num desabamento de terras da mina – todos conseguiram fugir, ele ficou lá, esmagado.
Alguns fizeram bons negócios e enriqueceram com o volfrâmio. Compravam-no e guardavam-no em sacos debaixo das camas. Posteriormente transportavam-no, de noite, para as separadoras no Porto. Aí, o minério puro era apurado e o teor de volfrâmio vendido, ao princípio aos alemães, depois aos ingleses.
Foi uma «época de oiro». Toda a gente «fazia» dinheiro, era também «época do contrabando e das candongas» .
Os novos ricos faziam gala da sua ostentação, exibindo: dedos recheados de aneis, canetas de tinta permanente no bolso, junto à lapela do casaco, os melhores chapéus [o chapéu era o luxo de qualquer pessoa], " lendo" o jornal de pernas para o ar, ou então recorrendo aos garotos da escola para lhes escreverem as cartas e lerem as notícias; outros continuaram pobres, fazendo jus ao ditado. "O dinheiro mal ganhado água o deu água o levou"...
Em contraponto com esta euforia de pseudo-riqueza, resultante da exploração do volfrâmio, ocorriam muitas situações de miséria e de pobreza. O acesso aos bens essenciais de mercearia estava limitado pelas senhas de racionamento.
Na altura, o que se comprava e quanto, era decidido consoante o número de elementos do agregado familiar, e não só. Sem se saber porquê alguns tinham direito a mais senhas, mesmo que tivessem menos filhos.
Mesmo assim, havia muita gente sem dinheiro para levantar os artigos que lhe eram atribuídos, limitando-se a ceder as suas senhas ou até vendê-las a quem tivesse mais poder de compra, ou ainda trocá-las por batatas ou centeio.
Gasolina e petróleo praticamente não existiam à venda. Os automóveis, designados por «carros ligeiros», andavam a gasogénio. Os candeeiros a petróleo foram substituídos por gasómetros e lamparinas com azeite. O sabão era feito com borras de azeite e soda cáustica, despejadas em caixotes compridos e altos, forrados com jornais. Depois de consolidado era cortado em barras com um arame fino esticado. Era muito rijo, de cor castanha escura, e fazia com a água pouca espuma.
No fim da guerra, a exploração do volfrâmio entrou em declíneo e a solução, para muitos, foi o regresso ao amanho das suas terras, onde tinham o apoio da família.









